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Espaço do Jornal Marco A arte de transformar histórias em imagens

Vencedores de prêmios, como o Jabuti, ilustradores mineiros se destacam no mercado editorial

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“O importante é que essa narrativa, ou essa imagem que eu vá criar, tenha a minha identidade; que o leitor, ao pegar o livro, veja que é o meu traço e isso é muito desafiador e estimulante na profissão”

Nelson Cruz

É comum, ao folhearmos um livro, nos encantarmos com os traços cuidadosamente desenhados que, junto com as palavras, constroem as histórias. Esse é o trabalho dos ilustradores de livros que, através de seus desenhos, nos mostram sua forma de interpretar o mundo e as histórias. O mercado mineiro pode se orgulhar de nomes como o de Nelson Cruz, que venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria Ilustração com o livro Os Trabalhos da Mão, de Alfredo Bosi.

Nelson Cruz nasceu em Belo Horizonte e, além de ilustrador, é artista plástico. Iniciou sua carreira em solo mineiro e, posteriormente, ficou conhecido em todo o Brasil. O prêmio de 2018 foi seu 6º Jabuti, mas o primeiro na categoria melhor ilustração. Para o artista, esse prêmio foi muito especial, pois serviu de estímulo para seguir em frente com a carreira em um cenário em que, na avaliação dele, a cultura e a arte estão passando por uma situação desfavorável no país. “Esse prêmio me trouxe muita alegria, porque a proposta de ilustração do livro foi arriscada, recriei versões clássicas da pintura e, mesmo assim, obtive retorno e reconhecimento pelo meu trabalho”, afirma.

Sobre o processo de criação das ilustrações do livro vencedor do seu mais recente troféu Jabuti, Cruz diz que se inspirou nos grandes mestres da pintura. A ideia casou perfeitamente com a história de Bosi. Ele defende que “ninguém cria a partir do nada”. Acredita ser importante que os artistas estejam em contato com os demais ilustradores, pintores, escultores, sejam eles jovens ou veteranos, pois, em algum momento, essas ideias vão se complementando até se construir algo próprio. “O importante é que essa narrativa, ou essa imagem que eu vá criar, tenha a minha identidade; que o leitor, ao pegar o livro, veja que é o meu traço e isso é muito desafiador e estimulante na profissão”, observa.

O meio artístico mineiro é muito rico e qualificado, a julgar pelos variados prêmios de ilustradores que vivem em Belo Horizonte. Mas, como ressalta Cruz, há ainda dificuldade de se consolidar um mercado de trabalho local, “até mesmo por causa do conservadorismo do público”. Ele pontua que os artistas de Minas ainda têm que lutar para fazer o mercado crescer e conseguirem mostrar seu trabalho no Estado.

Imersão no texto

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Ilustração de Helena Cintra, que também concorreu ao Prêmio Jabuti 2018

Mesmo com obstáculos, outros nomes mineiros têm se destacado no mercado editorial. Um exemplo é a ilustradora Helena Cintra, que também concorreu ao Prêmio Jabuti 2018 com o livro Extraordinárias, obra inteiramente feita por mulheres.

Também mineira de Belo Horizonte, a artista, que é graduada em Design Gráfico pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de ilustradora literária, é diretora de arte e ilustradora para branding.

Helena conta que o processo de ilustração de um livro depende muito da editora, que é quem representa o artista, pois, na maioria das vezes, o ilustrador não está em contato direto com o autor. Segundo ela, ilustrar exige um processo de imersão no texto e, ao fim do processo, é necessário que as ilustrações passem por uma série de aprovações até o fechamento do projeto. A ilustradora destaca ainda ser “emocionante” quando o autor do livro entra em contato, pessoalmente, pois costuma ser para agradecer pelo trabalho feito “e é sempre muito estimulante essa troca”.

Para a artista, por mais que o mercado editorial mineiro ainda seja pequeno, possui muito potencial e acredita que o Brasil está dando uma nova atenção para as produções contemporâneas do Estado. Além disso, Helena diz que, em conversa com outros ilustradores, sempre ouviu deles que o mercado editorial estaria em crise. Isso lhe demonstrou que, por mais que haja dificuldades e que o mercado esteja trabalhando com verba menor que antes, esse espaço pode resistir e continuar crescendo.

Cruz e Helena reforçam a importância de se encontrar uma editora que represente profissionais fora de Minas Gerais. O ilustrador afirma que, “por mais que esse estado seja maravilhoso, para que se possa crescer na profissão e ter o devido reconhecimento, é necessário que o trabalho ganhe o Brasil”. Helena concorda e observa que “o problema da dimensão cai mesmo no orçamento disponível para os projetos. Mesmo as grandes editoras de São Paulo não trabalham mais com grandes verbas, e, em Minas Gerais, isso é ainda muito menor”.

Ainda assim, a artista consegue vislumbrar um novo cenário a caminho. Ela observa que “o avanço da comunicação digital certamente fez diferença para esse meio nos últimos anos. É possível ser descoberto e também trabalhar remotamente para clientes de outros estados, e até outros países, sem precisar se mudar, como muitos profissionais faziam antes.”

O trabalho de um ilustrador vai além de imagens nas páginas dos livros. Helena destaca a diferença entre ilustração e desenho. Um desenho não precisa necessariamente de um objetivo, mas a ilustração existe em função de enriquecer uma mensagem, um texto, uma música, uma marca. Ela precisa transmitir algo ao leitor e, por isso, é tão importante”.

Artistas criativos

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Com vários e importantes prêmios no currículo, Marilda Castanha defende o pluralismo no mercado editorial

Outra ilustradora mineira de renome é Marilda Castanha. Formada em Belas Artes pela UFMG, foi vencedora de uma série de importantes prêmios, dentre eles o Jabuti em 2000, na categoria Ilustrações.

Marilda, que divide o ateliê e a vida com Nelson Cruz, com quem é casada, exalta a importância do pluralismo dentro do mercado editorial. Defende que as obras devem livrar-se do regionalismo que quer manter artistas somente dentro de seu estado natal.

Mesmo demonstrando preocupação com o cenário político atual, que afeta diretamente as artes, defende que há muitos artistas criativos e talentosos movimentando o mercado. “Acho que o mercado editorial é como um nadador. Mergulha, nada contra a correnteza, levanta a cabeça para pegar fôlego e retoma o nado, porque ele ainda tem muito o que contribuir”, diz Marilda, que também é autora de textos.

Para se tornar um ilustrador, observa Marilda, é necessário identificar-se com esta arte e ter em mente que a ilustração existe para enriquecer uma mensagem, um texto, uma música. É preciso ter um repertório rico, conhecer vários artistas e fazer pesquisas constantes, como fazem Nelson, Marilda e Helena, para poder inovar e fazer o mercado crescer, sempre.

Texto
Júlia Vilaça
Texto redigido por monitores do Jornal Marco, sob a supervisão da professora Maura Eustáquia de Oliveira
Fotos
1Raphael Calixto
2Acervo Pessoal
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