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Sociedade A cor da pele

Pesquisa do Programa de Pós-graduação em Educação revela os dilemas cotidianos dos jovens negros, que são minoria na elite econômica

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"A menina negra está ainda mais sujeita a passar por tudo isso, porque é mulher, tem a questão do cabelo, a cobrança estética, pois a estética brasileira não é negra, é branca, eurocêntrica"

Professora Pollyanna Nicodemos

O ex-jogador de basquete Michael Jordan, a apresentadora Oprah Winfrey e o multiempresário nigeriano Aliko Dangote fazem parte da seleta lista de negros mais ricos do planeta. De acordo com o ranking de 2017 da Revista Forbes, apenas dez dos 2.043 bilionários do mundo são negros, reafirmando o estereótipo branco da elite mundial. Para compreender a realidade dessa minoria negra que pertence às mais altas classes econômicas, a professora Pollyanna Nicodemos desenvolveu, em sua tese de doutorado para o Programa de Pós-graduação em Educação da PUC Minas, uma pesquisa apresentando o cotidiano e o perfil de jovens negros de elite no Brasil. “Eu nasci nas camadas populares e a preocupação com meu grupo racial me levou a pensar na juventude negra. Busquei compreender como esses jovens negros de elite se veem, como é a socialização e como é o grupo em que eles são uma minoria”, explica.

O estudo, iniciado por Pollyanna em 2011, durante seu mestrado em Educação, selecionou dez jovens negros, cinco homens e cinco mulheres, estudantes do ensino médio de um colégio particular da Zona Sul de Belo Horizonte, para participarem da pesquisa na dissertação. Esses jovens, que continuaram como atores da pesquisa no desenvolvimento da tese de doutorado da professora, foram escolhidos a partir de traços étnicos — tom da pele, cabelo, formato da boca e do nariz—, autodeclaração enquanto negros e a mensalidade do colégio onde a pesquisa foi iniciada. Em 2011, quando Pollyanna produziu sua dissertação de mestrado, a parcela mensal para estudantes do ensino médio girava em torno de R$1.100.

A professora destacou a evolução dos atores da pesquisa desde o ensino médio ao ensino superior quanto à compreensão da realidade social dos negros. “Como venho trabalhando com eles desde o mestrado, no doutorado pude acompanhá-los na transição do ensino médio para o ensino superior e percebi uma melhora na autoafirmação de serem negros. Quando trabalhei com eles no colégio, ainda eram muito envolvidos em um suposto ‘embranquecimento’, devido ao dinheiro. Apenas duas participantes da pesquisa já tinham, naquela época, uma consciência política sobre o que é ser negro no Brasil. No doutorado, essa ingenuidade dos outros entrevistados diminuiu. Houve uma maior conscientização do ser negro e dos dilemas que enfrentam”, diz Pollyanna.

A pesquisadora coletou depoimentos significativos que retratam situações de preconceito explícito, apesar da posição social ou condição financeira dos atores envolvidos no estudo. “Abordagens policiais agressivas na região onde eles vivem, por exemplo, são questões que todos eles enfrentam. Claro que somos a favor de uma política de afirmação, que já está acontecendo, mas ainda numa escala pequena. A partir do momento que alcançamos essa posição que nos foi negada ao longo de um processo histórico, o racismo não desaparece. Pelo contrário: é evidenciado. É um estranhamento, é uma ideia de não pertencimento. A menina negra está ainda mais sujeita a passar por tudo isso, porque é mulher, tem a questão do cabelo, a cobrança estética, pois a estética brasileira não é negra, é branca, eurocêntrica. Nós vivemos em padrões estéticos eurocêntricos, então o cabelo precisa ser liso, as meninas contam muitas dificuldades como essas”, explica.

Em um dos depoimentos, a jovem Laura* relata ter passado por situações de humilhação e dificuldades para entrar em uma famosa boate de Belo Horizonte. “Fui em uma boate na Zona Sul com minha amiga. Chegamos cedo, antes de a boate abrir. Um senhor que estava na portaria pegou minha identidade e disse: ‘Aqui a casa… não vai dar para você entrar agora. Porque hoje é só para sócios.’ Então falei: ‘É só para sócios? Aquelas meninas ali não entraram? Elas não são sócias’ E ele: ‘Não, é só para sócios’. Eu e minha amiga ficamos frustradas, e, na nossa inocência, tentamos fingir que aquilo não tinha acontecido, então fomos para outra boate. No sábado, […] voltamos lá e outro senhor estava na porta, então chegou mais um, falou no ouvido dele e ele disse: ‘Ah, não vai dar não. A casa está cheia’. E eu disse: ‘Como assim está cheia?’. E foi só eu sair da fila e ele deixou outras pessoas entrarem. Voltei e disse: ‘Olha, isso é preconceito, sabia?’. Minha amiga disse ‘Não vou deixar acontecer isso. Vou ligar para a polícia’. Depois de um tempo e de uma conversa, eles deixaram a gente entrar. Depois não voltei nesse lugar, porque me senti muito humilhada. A gente não acha que vai acontecer com a gente. Eu demorei a admitir para mim mesma que isso era racismo”, diz.

Segundo Pollyanna, os entrevistados afirmam se sentir pertencentes a uma elite intelectual, mas não gostam de se classificar como elite econômica. Laura* afirma que sempre teve amplo acesso ao que chama de capital cultural. “Eu fiz cursinho de inglês, sempre quis falar inglês, porque os ambientes acadêmicos são muito colonizadores ainda. Fiz francês, gostei, meus pais sempre foram muito presentes. Eu sou muito privilegiada. Desde pequena sempre fui a muitos teatros e museus, li muitos livros, sempre tive uma bagagem cultural muito bacana”, conta. A fala da jovem Gabriela* reitera a ideia da pesquisadora. “A gente não tem muita grana, mas a gente vive bem, normal. Acho que os espaços que ocupo, as coisas que busco se configuram como elite. Não sei se somos elite, mas o que nós, lá em casa [sic] procuramos, culturalmente, são coisas mais elitizadas. Essas férias eu fiz uma viagem internacional, fiquei dois meses fora, estive na França, visitei minha mãe em Portugal, que estava lá fazendo pós-doutorado. Eu já visitei também Estados Unidos, Inglaterra e Bélgica”, conta.

Outros jovens, no entanto, percebem que fazem parte de uma classe social seleta e que, ainda assim, passam por situações de preconceito, como é o caso de Lúcio*. “Eu me considero um negro de elite. Pelas oportunidades e pela condição de vida que meus pais me dão. Eu acho que minha casa é muito boa e muito grande, tem piscina lá em cima [sic], meus pais pagam minha faculdade, tenho um carro para sair, saio quando eu quero, então é muito tranquilo. Tem um estereótipo muito ridículo. Às vezes conhecemos o pessoal da faculdade e aí lá temos um convívio banal. O pessoal não me conhece, nunca veio aqui, aí falo: ‘vou fazer uma festinha lá em casa’. Aí o pessoal chega aqui e assusta. ‘Nossa, cara! Como você tem dinheiro assim’? Agora, se eu tivesse uma casa pequena, mais humilde, para eles seria mais normal. Eles perguntam o que meus pais fazem porque vem aquela curiosidade, a gente percebe isso. Não ligo, mas vejo na reação das pessoas.”

O jovem também relata ter sido abordado diversas vezes de forma preconceituosa na região onde vive, percebendo o racismo que persiste apesar de sua condição financeira. “Aqui no bairro, não tem muitos negros que moram aqui, tem muita casa boa, alto padrão. Quando eu era mais novo, chegava tarde das baladas, subindo a pé, a polícia parava a gente e perguntava: ‘Onde você…’ ‘Eu moro aqui’. ‘Em qual rua?’. Aí falamos a rua, até o CEP, porque eles não acreditam, sempre tem uma desconfiança”, afirma. O caso de Lúcio* é similar ao caso de Eduardo*, que conta as dificuldades enfrentadas pela mãe: “Minha mãe sofre bastante pela posição dela. Ela vai a agências bancárias de elite, tem contas lá. Aí o gerente marca uma reunião com ‘a dona da empresa’. Ela foi e tomou um chá de cadeira na recepção. Então o rapaz perguntou para ela o que estava fazendo ali. Então ela falou: ‘Vou ter uma reunião com o gerente’. E ele falou assim: ‘Ah, a Alessandra não pôde vir? Mandou a secretária?’ E ela: ‘Não, eu sou a Alessandra’. Ela tirou todo o dinheiro que tinha daquela agência. Isso é massacrante”, lamenta.

Dinheiro não apaga o racismo

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"Com a pesquisa, vemos que a vulnerabilidade social não é um elemento determinante para que haja racismo. A cor da pele continua sendo um limitador para que esses negros tenham sua efetiva ascensão social"

João Pio de Souza

Para a professora Pollyanna, o estudo evidencia que, apesar da mobilidade social alcançada, os negros que pertencem à elite não são empoderados pelo dinheiro. “Ao contrário do que se pensa, o dinheiro não dá poder ao negro e nem apaga o racismo que enfrentamos. Os negros com quem tive o prazer de conviver, de entrevistar, de ouvir, vivem a todo momento os dramas de ser negro e pertencer a uma elite econômica. Por mais que tenham um capital cultural, social, capital simbólico, são sempre vistos como outsiders, como intrusos, pessoas que estão fora do seu lugar. São aquelas pessoas que têm que provar para os amigos, os colegas frequentam as casas e não acreditam que a casa luxuosa é deles; é uma trajetória permeada por muita desconfiança, porque o que predomina é a linha de cor”, pontua a professora.

O militante João Pio de Souza, superintendente de povos e comunidades tradicionais na Secretaria de Estado de Direitos Humanos de Minas Gerais e também Agente Pastoral Negro, considera necessária a análise a partir de um novo ponto de vista, para que o racismo passe a ser visto como uma questão que transcende as classes econômicas. “O estudo aponta como a questão do racismo é estrutural e estruturante nas relações interpessoais no Brasil. Em todos os espaços, seja nos espaços de poder, na vida acadêmica, a ascensão social não apaga o problema do racismo, como muitos pensam. Poucos estudos mostram essa realidade, porque a maioria tende a considerar a questão econômica dos negros que estão em situação de pobreza. Com a pesquisa, vemos que a vulnerabilidade social não é um elemento determinante para que haja racismo. A cor da pele continua sendo um limitador para que esses negros tenham sua efetiva ascensão social”, enfatiza.

 

* Nomes fictícios para preservar os atores participantes da pesquisa.
economia.uol.com.br/noticias/redacao/2017/04/05/entre-2043-bilionarios-so-10-sao-negros-incluindo-oprah-e-michael-jordan.htm#fotoNav=3

Texto
Lídia Lima
Fotos
1Acervo Pessoal
2Raphael Calixto
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