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Letras A descoberta do mundo

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Poscynton Fernandes: descoberta do mundo por meio da leitura

Projeto trabalha novas metodologias de letramento e alfabetização de adultos com deficiência intelectual

Mariana Queiroga, aluna de Pedagogia, e Stephanie Costa, usuária beneficiada pelo projeto: muitos ganhos com a atividade

“Quando a leitura entra na vida da pessoa, ela descobre o mundo. E é o acesso a este mundo que estamos encontrando aqui”, afirma, com um sorriso, Patrícia Mônica de Carvalho, ao se referir ao trabalho de alfabetização e letramento desenvolvido pela Pró-Reitoria de Extensão, por meio do Curso de Letras, com adultos com deficiência intelectual. Ela é mãe de Poscynton Carvalho Fernandes, de 24 anos, participante do projeto Aprendizagem da leitura e da escrita por parte de adultos com deficiência intelectual, desenvolvido desde 2016 entre as atividades do projeto Rede Incluir.

O objetivo principal é promover oportunidades de aprendizagem da leitura e da escrita a adultos com deficiência intelectual. A maioria dos participantes possui Síndrome de Down e outras questões que comprometem a função cognitiva e já passou por instituições de ensino tradicionais ou destinadas a crianças com necessidades especiais, apresentando dificuldades para compreensão de textos simples do dia a dia. A ideia é compreender a natureza do déficit cognitivo desses alunos e possibilitar o aprendizado. “Nossa intenção é oferecer maior autonomia para a convivência em sociedade e que possam concorrer a vagas no mercado de trabalho”, explica a professora Arabie Bezri Hermont, coordenadora do Curso de Letras e do projeto de alfabetização.

O objetivo de capacitar os alunos para uma vida mais autônoma é também uma expectativa dos pais dos participantes. “Meu desejo é que o Poscynton consiga se expressar e se defender em situações em que eu não esteja com ele”, diz a mãe Patrícia. Além do letramento e alfabetização em língua portuguesa, tem sido trabalhado o letramento alfanumérico, que é o conhecimento dos números e a capacidade de fazer contas simples. “Os participantes nos surpreenderam porque demonstram maior facilidade para o aprendizado da matemática, que não era o foco inicial do projeto”, explica Mariana Queiroga, aluna extensionista do Curso de Pedagogia.

Além de alcançarem o objetivo, tem sido relatada a elevação da autoestima dos participantes, o que influencia no processo de aprendizado. A mãe da participante Stephanie Meri Costa, de 25 anos, diz que ela chegou a completar o ensino médio, mas se formou só sabendo escrever e que a leitura estava muito atrasada. “Além do aprendizado, ela ganhou autonomia. Antes ela tinha medo de falar”, comemora Cleide. Para Patrícia, mãe do participante Poscynton, o projeto trabalha muito o psicológico, o que facilita o aprendizado. “Nossos filhos se sentem valorizados. Ele sempre se viu como diferente das outras pessoas, e o trabalho desenvolvido deu a ele autoconfiança”. Ganham também os alunos extensionistas, que têm a oportunidade de vivenciar e experimentar. “O projeto tem por diferencial a interação com a família. Torna possível acompanharmos a evolução dos alunos sob outra perspectiva”, afirma Mariana Queiroga Gomes, aluna do 6º período do Curso de Pedagogia.

Essa interação tem sido trabalhada dentro da metodologia proposta pelo grupo de trabalho. São adotadas a pesquisa-ação, que é uma forma de ação planejada que permite investigar a própria prática de alfabetizar e propor novas alternativas e metodologias participativas, que promovem a interação de participantes, pais e educadores. “Pouca reflexão foi realizada sobre o desempenho escolar de pessoas com deficiência intelectual. Percebemos o fracasso do processo tradicional através da falta de interesse, baixo aprendizado, reprovação e a evidente exclusão”, explica a professora Arabie.

Para este ano, a proposta é integrar também profissionais de saúde e educação para que possam sinalizar avanços e dificuldades a fim de balizar novas propostas. Também foram integrados ao projeto como parceiros os cursos de Fonoaudiologia e de Pedagogia. A Fonoaudiologia auxiliará na compreensão de casos patológicos ligados à relação linguagem e cognição. Já a Pedagogia, pela vocação natural do curso para a docência, contribuirá não somente para o processo de alfabetização, mas também para outras áreas do conhecimento.

O trabalho é desenvolvido durante dois dias da semana, com 22 participantes na faixa etária de 20 a 30 anos, no Campus Coração Eucarístico.

Jogos de Leitura

O Curso de Letras também desenvolve os Jogos de Leitura, iniciativa de estímulo a essa prática, direcionada ao público infantil, que acontece dentro do projeto Tenda da Leitura. Desde a edição de agosto de 2016, alunos da disciplina Estágio Supervisionado IV passaram a participar do evento com jogos criados por eles, tendo a leitura como habilidade necessária. A cada edição do Tenda da Leitura, são disponibilizados de cinco a seis jogos. São versões em tabuleiro adaptadas de jogos tradicionais para serem jogados em grupos, duplas ou em disputas entre equipes. Alguns também trabalham a interação entre pais e filhos. “A criação de jogos dentro da disciplina visa desenvolver no discente de Letras a capacidade de ser autor de seu material didático”, explica a coordenadora do projeto Jogos de Leitura e da disciplina Estágio Supervisionado IV, professora Raquel Beatriz Junqueira Guimarães. “Apesar de o público infantil estar acostumado às plataformas digitais, a aceitação dos jogos de tabuleiro tem sido muito boa”, enfatiza.

O projeto Tenda da Leitura é realizado desde 2015 pela Secretaria de Cultura e Assuntos Comunitários da PUC Minas, por meio do Museu de Ciências Naturais. O objetivo é estimular a leitura, através da troca de livros, doações de obras literárias, encontros com escritores, contação de histórias e outras atividades. O público participante pode levar obras literárias para trocá-las por outras.

A Rede Incluir

Visando a capacitação profissional de pessoas com deficiência e reabilitadas pelo INSS, a Rede Incluir oferece há mais de dez anos vários cursos. Atualmente estão em andamento os cursos de artesanato com materiais reaproveitáveis, informática básica, informática básica para cegos (sistema NVDA), auxiliar administrativo com ênfase em rotina de trabalho, massoterapia, introdução à cidadania e alfabetização de adultos com deficiência intelectual. Atuam nos projetos da Rede Incluir 30 extensionistas.

Texto
Michelle Stammet
Fotos
Raphael Calixto
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