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Pesquisa Autonomia na aprendizagem

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Alexandre Martins elaborou glossário

Recurso auxilia estudantes com deficiência visual na aprendizagem de física

“A única coisa complicada era em Ciências, Química e talvez Física, porque a professora de ciências enxerga e, ao explicar alguma coisa para nós, a gente tinha que se adaptar ao jeito dela, não ela adaptar ao nosso”. O depoimento de um estudante cego, do ensino médio, traduz a dificuldade de alunos com deficiência visual terem acesso aos conceitos dessas matérias explicados em livros didáticos através de figuras complementares aos textos. Foi essa a razão para a criação de um glossário contendo símbolos de mecânica em alto-relevo, com legendas em braile e em texto (português), necessários para representar as situações ilustradas nos diagramas de física. “A descrição das figuras, quando são transcritas, muitas vezes não é feita de maneira apropriada, utilizando termos e analogias desconhecidas para o aluno cego”, compara o estudante, cujo depoimento consta de trabalho sobre o tema, premiado no 25º Seminário de Iniciação Científica da PUC Minas. Outros projetos de pesquisa na Universidade tratam do tema.

Grupo de pesquisa integrado pelos professores Adriana Gomes Dickman e Amauri Carlos Ferreira, do Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática da PUC Minas, gerou estudos inéditos na área. “Não há uma sistematização para a representação de símbolos de física em livros didáticos para alunos cegos. É importante a possibilidade de impressão em série desses símbolos em impressora braile, para muitos alunos ao mesmo tempo”, defende a professora.

Como projeto de mestrado do Programa de Pós-graduação, Alexandre de Oliveira Martins elaborou um padrão de símbolos em alto-relevo que utiliza pontos semelhantes ao do Sistema Braille. O padrão tem por objetivo representar, por meio de símbolos, objetos que comumente aparecem no ensino da Mecânica, como blocos, cordas, molas, roldanas e vetores. Desta forma, após impresso, o conjunto de símbolos é capaz de representar em relevo as situações-problema utilizadas nos livros didáticos, nas aulas e nas avaliações de Física, resgatando, assim, a autonomia do estudante cego. Um pré-teste, que se mostrou plausível, foi realizado com alunos do Instituto São Raphael, em Belo Horizonte, conta o professor Alexandre.

Com pesquisa de destaque na área de Ciências Exatas e da Terra, no Seminário de Iniciação Científica da PUC Minas, a professora Adriana Gomes Dickman e o estudante de Física Matheus Leite Duarte organizaram esses símbolos, a partir de orientações pela professora Paula Branco Morais, coordenadora do curso de Tecnologia em Comunicação Assistiva, sobre a disponibilização deles. “Acredita-se que suprimir uma figura prejudique o aprendizado do aluno com deficiência visual. Não transcrever uma figura e indicar que o aluno peça ajuda ao professor retira do estudante a autonomia para estudar em locais que não sejam a sala de aula”, diz no estudo a professora Adriana.

Já como doutorando no Programa de Pós-graduação em Educação, o professor Alexandre está expandindo os símbolos para descrever qualquer problema da área de mecânica, além de implementar um software PDC (Physics Diagram Creator), que disponibiliza os símbolos prontos para o usuário, facilitando a manipulação pelo professor (no mestrado foi utilizado um software gratuito, que necessitava que o usuário desenhasse o símbolo manualmente), para gerar as figuras de situações-problema da física. O desenvolvimento do software PDC contou com o trabalho de iniciação científica do aluno, da Engenharia de Computação, Gabriel Cesar Braga Lucindo, também premiado no 25º Seminário. O professor Alexandre investiga também as barreiras que impedem o padrão de símbolos ser utilizado em sala de aula. “Há que se ter sala multifuncional nas escolas, o que é raro de se encontrar”, defende Alexandre. Ele ressalta que não é fácil fazer o cego entender os símbolos, que têm que ser representados um de cada vez. “Não adianta o professor mostrar todos os símbolos ao mesmo tempo para se acostumar com a ideia”, diz.

Alexandre considera que a representação das figuras resolve somente parte da questão: o cego registra o raciocínio dele com a observação simultânea, assim como fazem os outros alunos?, indaga-se o pesquisador, que diz pensar nessa problemática ainda sem solução.

Texto
Leandro Felicíssimo
Foto
Raphael Calixto
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