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Profissão Compromisso com a coletividade

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Ex-aluna, a psicóloga Maria Elizabeth Moreira de Freitas integra a equipe de trabalho psicossocial em Brumadinho

A vasta possibilidade de atuação da Psicologia na área das políticas públicas

Uma profissão em constante reinvenção. Que valoriza o vínculo, a escuta, o cuidado, o sujeito e o coletivo. A Psicologia, conhecida tradicionalmente pela atuação no atendimento clínico, tem atualmente como uma das suas principais frentes de trabalho o compromisso com o social através dos espaços conquistados nas políticas públicas. As mudanças exigem um novo perfil de profissional, mais apto a lidar com os desafios nas comunidades. Sempre pioneira, a Faculdade de Psicologia, que completa seis décadas este ano, oferece na grade curricular de seus cursos disciplinas que garantem a formação de um profissional completo, apto a lidar com as novas demandas da profissão, mas também com o tradicional. “Assim como a PUC Minas foi pioneira ao criar o Curso de Psicologia antes mesmo da regulamentação da profissão no Brasil, a Faculdade de Psicologia rapidamente percebeu a demanda por uma nova estruturação do currículo”, explica a diretora da Faculdade de Psicologia, professora Betânia Diniz Gonçalves.

O marco da mudança na profissão é o estabelecimento de direitos à população e alterações nas políticas relacionadas à saúde pela Constituição Federal em 1988. A Psicologia, que já vinha se articulando com a área das políticas públicas, com os movimentos sociais, com a luta por garantia de direitos, se fortalece ao acolher uma área que é a assistência social. “Com a construção da Constituição e a garantia de direitos, a Psicologia passa a se abrir para outras áreas e os profissionais a pensarem de que forma podem contribuir. A profissão, focada na atuação clínica, individual e elitista, precisou se adaptar às mudanças que vieram com a abertura democrática e apresentar à sociedade qual era o compromisso social da Psicologia”, explica a professora Márcia Mansur Saadallah, coordenadora do curso de especialização em Políticas Públicas de Assistência Social do IEC PUC Minas, ofertado em Belo Horizonte e no Campus Poços de Caldas. Esta mudança culminou na criação do Sistema Único de Saúde (SUS), e consequentemente do Sistema Único de Assistência Social (Suas). A partir de 2005 foi estabelecida por lei a obrigatoriedade de psicólogos no corpo técnico de todos os equipamentos ligados ao Suas, o que naturalmente ampliou a oferta de vagas disponíveis no mercado de trabalho. A boa notícia repercutiu no interesse pela formação. Dados do Censo da Educação Superior de 2017 demonstram que, entre 2012 e 2016, houve crescimento de 25,8% no número de matrículas para os cursos de Psicologia em todo o país. O aumento é superior ao de outros cursos tradicionais.

Atuação nas políticas sociais

O trabalho do psicólogo nas políticas sociais consiste em considerar e atuar sobre a dimensão subjetiva dos sujeitos, de forma a beneficiar o crescimento da autonomia e cidadania. Um exemplo recente é atuação de profissionais em Brumadinho, imediatamente após o rompimento da barragem que levou centenas de vidas e deixou centenas de famílias desabrigadas. Os psicólogos sociais foram os primeiros a serem solicitados para o trabalho de acolhimento e escuta. “O rompimento da barragem ocorreu no dia 25 de janeiro e no dia seguinte eu já estava aqui. No primeiro momento fizemos o acolhimento pela perda e cuidamos do encaminhamento das necessidades básicas e emergenciais da população”, explica a psicóloga Maria Elizabeth Moreira de Freitas, que integra a equipe de trabalho psicossocial contratada pela mineradora Vale, em Brumadinho. “Agora estamos estruturando um plano de trabalho em rede com os municípios, que prevê a continuidade do atendimento no município, com fortalecimento das redes para atender as famílias de maneira duradoura para que não fiquem desamparadas”, explica.

Para Dalcira Ferrão, conselheira presidente do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), a inserção de psicólogos nas políticas públicas garantiu a escuta qualificada da comunidade, quebrando preconceitos e estereótipos. “Isto se dá saindo detrás da mesa e indo a campo, vivenciando e participando de maneira ativa no dia a dia das comunidades e suas realidades territoriais”, afirma.

Esta atuação em rede nas comunidades exige um profissional com visão mais ampla da sociedade, habilitado a entender a Psicologia como um processo de construção coletiva e das relações sociais. “É exigida a capacidade de entender o contexto político em que ele e a comunidade estão envolvidos e de trabalhar de forma mais horizontal, já que os processos são desenvolvidos de maneira coletiva e multidisciplinar”, enumera a professora Márcia Mansur. O professor João Leite Ferreira Neto, com formação em Psicologia Social e atuação em saúde pública na Prefeitura de Belo Horizonte, reforça a ideia de um profissional mais atento às questões políticas. “O psicólogo nas políticas públicas precisa entender que seu trabalho tem contexto. Não é mais o profissional e o paciente em consultório e o psicólogo deixa de ser a figura central. Ele deve entender a ação tanto nas condições de vida do paciente quanto na institucionalidade que organiza a proposta do serviço”, afirma.

Aprendizado pela experiência

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“É a oportunidade de atuar com a intervenção psicossocial. O que a terapia é para a clínica, a intervenção psicossocial é para a psicologia social”

Professora Márcia Mansur, coordenadora do curso de especialização em Políticas Públicas do IEC e coordenadora do projeto Articulando Redes, Fortalecendo Comunidades

Para se adequar à nova demanda, a reestruturação do curso foi processual. “A PUC é inovadora nesse sentido. Foram inseridas na grade curricular disciplinas que tratam desta nova realidade a fim de habilitar o futuro profissional”, explica a professora Betânia. Além das disciplinas, o curso garante a formação integral do aluno com várias opções de estágio, extensão e pesquisa, que articulam teoria à prática social. “É a oportunidade de atuar com a intervenção psicossocial. O que a terapia é para a clínica, a intervenção psicossocial é para a psicologia social”, exemplifica Márcia. É o caso do projeto Articulando Redes, Fortalecendo Comunidades – realizado desde 2012 e coordenado pela professora Márcia Mansur -, que tem o objetivo de contribuir para o fortalecimento e autonomia de redes sociais nas comunidades da Vila Cemig, São Gabriel e Lajedo, em Belo Horizonte. A equipe do projeto, formada por alunos e professores dos cursos de Psicologia e Comunicação Social, realiza ações de diagnóstico e de capacitações das lideranças comunitárias dessas comunidades. Os diagnósticos norteiam as propostas do plano de ação que são desenvolvidos junto com as lideranças comunitárias e equipamentos sociais. O projeto acredita que, através da articulação dos atores e agentes sociais, entidades e organizações da sociedade civil e dos serviços e equipamentos sociais do poder público, é possível uma maior potencialização do atendimento às famílias da comunidade em situação de vulnerabilidade social, assim como uma maior garantia no acesso dessas famílias aos direitos sociais.

E foi participando de atividades de extensão e estágio que a psicóloga Maria Elizabeth Moreira de Freitas, formada em 2012, descobriu que a Psicologia oferecia muito mais do que o atendimento clínico. Ela passou por estágios nas áreas de clínica e psicologia hospitalar, mas a participação nos projetos Rondon e Articulando Redes foram decisivas para a escolha profissional. “A extensão foi o canal para conhecer outros campos. O contato com as comunidades mudou a minha percepção de mundo. Comecei a perceber como a política pública pode interferir na constituição de sujeitos autônomos e mais participativos”, cita Maria Elizabeth, também conhecida como Betinha. Após a formatura, ela passou por diversas experiências. Foi perita da Justiça Federal na avaliação psicossocial de famílias que residiam na BR-381 e no Anel Rodoviário. Ainda na Justiça Federal, foi convidada a coordenar as equipes de campo formadas por engenheiros, arquitetos e psicólogos. Trabalhou em Mariana como analista de diálogo com comunidades quando houve o rompimento da Barragem de Fundão, em 2015. Em 2017, foi convidada para assumir a Diretoria de Proteção Social Básica do Estado de Minas Gerais, responsável pelo apoio técnico aos 853 municípios do estado e também realizou o apoio técnico aos 35 municípios que foram atingidos pela Barragem de Fundão e na construção do plano estadual de proteção social para estes municípios. Toda essa experiência a levou a atuar como psicóloga social no levantamento de demandas, orientação e apoio na tratativa das famílias de vítimas e desabrigados em Brumadinho. Betinha destaca que o psicólogo tem um papel importantíssimo no processo de enfrentamento das desigualdades sociais. “A principal contribuição do psicólogo é para o protagonismo e a promoção de emancipação de usuários desta política, considerando o campo da subjetividade dos sujeitos”.

A ex-aluna do Curso de Psicologia e conselheira presidente do CRP-MG, Dalcira Ferrão, também menciona a importância do contato com o tema das políticas públicas quando ainda estava na Universidade. “Minha formação foi toda na área social. Desde a minha graduação iniciei estágios em políticas públicas, principalmente na assistência social. Ter tido disciplinas relacionadas às políticas públicas foi fundamental para entender a inserção de nossa profissão na área e também sua importância na composição das equipes multidisciplinares”, afirma.

Currículos em constante renovação

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As professoras Cláudia Barroso, chefe de departamento do Curso de Psicologia, e Betânia Diniz, diretora da Faculdade de Psicologia, destacam o pioneirismo do curso

Internacionalização, interação com as novas tecnologias, licenciatura, lazer e esporte também são temáticas abordadas nos currículos do curso, que é ofertado nos campi Coração Eucarístico, Betim e Poços de Caldas e nas Unidades São Gabriel e Praça da Liberdade. Os currículos passam por constante atualização, o que permite acompanhar as tendências do seu tempo sem perder o foco no que é sólido e tradicional. “Conseguimos atender às demandas emergentes e também manter aquilo que é importante na direção do tradicional. As demandas emergentes que deram certo se estabelecem como tradicionais. Então esta mudança de cenário é positiva e processual”, afirma a professora Betânia. As disciplinas Seminários e Aulas Abertas, presentes na grade dos cursos de todas as unidades, permitem abordar temas que surgem a partir de demandas momentâneas.

As disciplinas de estágio também são uma importante ferramenta de formação do futuro profissional, constituindo 15% das quatro mil horas de curso. “Desde o 2º período o aluno faz estágios obrigatórios. Na medida em que o curso evolui, a complexidade dos estágios aumenta. Antes de se formar o estudante já atua como um profissional”, afirma a professora Cláudia Regina Barroso Ribeiro, chefe de departamento e coordenadora do curso no Campus Coração Eucarístico. “Outro fator importante é que o campo de estágio é oferecido pela Universidade, são parcerias da Faculdade de Psicologia com instituições externas. É a oportunidade do futuro profissional se apresentar para o mercado de trabalho”. Há campos de estágio do curso nas áreas de clínica, educação, comunidade, trabalho, pesquisa, política, jurídica, saúde dentre outras.

Todo este trabalho resulta em avaliações positivas pelo mercado de trabalho. No Ranking Universitário Folha (RUF) 2018, divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo, no quesito Avaliação do Mercado, o curso foi classificado como o primeiro em Minas Gerais e em segundo lugar entre as universidades privadas de todo o Brasil.

O Programa de Pós-graduação em Psicologia, com oferta de mestrado e doutorado, também é uma referência em qualidade. Na Avaliação Quadrienal de 2017 (2013-2016) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Programa foi avaliado com nota 5, numa escala que vai até 7. Para divulgação da produção acadêmica, a Faculdade de Psicologia edita duas revistas eletrônicas: a Pretextos abre espaço para as pesquisas desenvolvidas pelos alunos na graduação. Já a Psicologia em Revista, é editada pelo Programa de Pós-graduação, e destinada à produção stricto sensu.

Texto
Michelle Stammet
Fotos
Raphael Calixto
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