revista puc minas

Extensão Conhecimento a serviço da sociedade

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Em parceria com a Arquidiocese de Belo Horizonte, a PUC Minas atua no Projeto Providência, entidade filantrópica que atende cerca de 1,6 mil crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social

Complexos desafios do mundo contemporâneo motivam a prática extensionista

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“A Universidade tem o dever de colocar o conhecimento a serviço da sociedade e a extensão é um canal que propicia a realização de ações concretas que possam atender aos desafios que a realidade nos coloca”

Professor Wanderley Chieppe Felippe, pró-reitor de Extensão

Contribuir para a formação acadêmica, profissional e cidadã e interferir positivamente na vida das comunidades, promovendo a inclusão e o desenvolvimento social. É dessa forma que a extensão universitária tem pautado suas ações na PUC Minas, sempre com um olhar atento e em sintonia com as demandas da sociedade. A concepção de extensão, conforme explica o pró-reitor da área, professor Wanderley Chieppe Felippe, vai além da ideia de um projeto social que beneficia um determinado grupo de pessoas. De acordo com ele, a extensão deve necessariamente contribuir para esses três tipos de formação. “A Universidade tem o dever de colocar o conhecimento a serviço da sociedade e a extensão é um canal que propicia a realização de ações concretas que possam atender aos desafios que a realidade nos coloca”, explica.

Os complexos desafios do mundo contemporâneo e a constante preocupação com uma educação de qualidade é o que tem motivado a reflexão e a prática da extensão, de forma indissociável com o ensino e a pesquisa, conforme prevê a Constituição. Presente em todos os campi e unidades, a extensão se organiza dentro de uma estrutura de núcleos temáticos e coordenações setoriais, que assessoraram os cursos de graduação e pós-graduação na execução, em 2017, de 110 programas e projetos, em que atuaram 2.255 alunos e 289 professores/funcionários, beneficiando mais de 200 mil pessoas, direta e indiretamente. Os projetos estão inseridos nas seguintes áreas de conhecimento: direitos humanos e inclusão; meio ambiente e saúde; políticas sociais e urbanas; tecnologia e inovação; teologia, educação e filosofia; e trabalho e produção. O público desses projetos também é diverso, compreendendo diferentes faixas etárias, escolaridade, renda familiar, entre outras características.

A extensão também se faz presente nos projetos pedagógicos e nas matrizes curriculares de todos os cursos de graduação, por meio das práticas curriculares de extensão (atividades acadêmicas desenvolvidas em estrita vinculação com os componentes curriculares do curso). “No Brasil, a maioria das universidades ainda não tem um sistema como esse. No caso do segmento das universidades comunitárias, a PUC Minas é, sem dúvida, a primeira a implantar esse sistema. As universidades públicas têm implantado pouco a pouco um sistema similar”, afirma o pró-reitor. Em 2017, 159 disciplinas da graduação possuíam práticas curriculares de extensão, alguns cursos inclusive com mais de uma, tendo sido contabilizadas 12.099 participações de estudantes e 400 de docentes.

Experiência pioneira

Apesar das dificuldades de se colocar a extensão em prática no ensino a distância, os cursos de Administração e Ciências Contábeis, da PUC Minas Virtual, vêm realizando uma experiência inédita que tem rendido bons frutos. “Introduzimos as práticas curriculares de extensão de tal maneira que cada aluno ou grupo de alunos de cidades próximas possam realizar ações, comprová-las e escrever relatórios sobre a sua contribuição. É uma experiência pioneira”, comemora o professor Wanderley Chieppe.

No caso da pós-graduação, a aproximação tem se dado com os programas stricto sensu, com o intuito de propor parcerias internas, tendo como base uma diretriz da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) que indica que a produção da pesquisa deve ter uma inserção social.

Além disso, é tradição da Universidade a realização de dois eventos anuais: a Mostra de Extensão, no primeiro semestre; e o Seminário de Extensão Universitária, no segundo.

Entre as dezenas de programas e projetos de extensão desenvolvidos atualmente, o professor Wanderley destaca alguns pela sua abrangência e “grandes benefícios” que trazem para a população. Em conjunto com a Arquidiocese de Belo Horizonte, a extensão desenvolve há seis anos o programa Vila Fátima, que por meio de oficinas técnicas e temáticas busca construir no distrito de Justinópolis, Ribeirão das Neves, um centro de referência para a juventude, família e comunidade, tendo realizado mais de 18 mil atendimentos em 2017; e o projeto Providência na Comunidade, que empreende ações de comunicação interna e externa do Projeto Providência, entidade filantrópica que completou 30 anos em maio deste ano e atende cerca de 1,6 mil crianças, adolescentes e jovens, na faixa etária de 2 a 18 anos, em situação de risco social, violência familiar e extrema pobreza.

Novas perspectivas

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Gustavo Martins, aluno do Curso de Ciências Contábeis da PUC Minas São Gabriel, participou de oficinas no Vila Fátima, experiência que o motivou a continuar os estudos

Foi em busca de novas perspectivas de vida que o microempreendedor do ramo de turismo Gustavo Martins de Almeida, 19 anos, estudante do 3º período do Curso de Ciências Contábeis da PUC Minas São Gabriel, buscou o programa Vila Fátima. Morador de Justinópolis, ele conta que se interessou pelo projeto depois que a equipe esteve na sua escola, em 2014, quando ainda cursava o ensino médio. “Depois da escola não tinha nada para fazer, então fui ver do que se tratava. Foi uma impressão encantadora, a felicidade que as pessoas tinham de estar ali”, conta Gustavo, que participou de oficinas de fotografia e produção de vídeo.

Segundo ele, a experiência no projeto e o contato com participantes que já haviam ingressado no ensino superior o estimularam a dar continuidade aos estudos. “Eu não tinha perspectiva muito grande de fazer faculdade, de começar uma carreira. Faculdade não era para mim, não. Claro que tem que se esforçar, mas, se eles conseguiram, eu também consigo”, afirma Gustavo. Ele diz que o Curso de Ciências Contábeis o tem ajudado a gerenciar melhor o próprio negócio, que ele montou junto com a irmã, na mesma época em que ingressou na Universidade.

Cooperação em benefício da população

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Projeto Lições da terra: reunião entre estudantes e membros de comunidade quilombola, em Pompéu (MG)

Ao longo dos anos, muitos dos projetos desenvolvidos pela extensão tiveram o apoio de importantes parceiros. “Essas parcerias com órgãos externos trouxeram recursos financeiros para a execução de projetos de extensão e possibilitaram um trabalho de cooperação em benefício da população”, observa o pró-reitor.

Atualmente, a PUC Minas mantém parcerias com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Câmara Municipal de Belo Horizonte, Câmara de Dirigentes Lojistas de Betim e outras entidades não governamentais.

As comunidades quilombolas também têm sido beneficiadas por projetos de extensão dos cursos de Direito e Ciências Sociais, que trabalham em parceria com o Incra. Esses projetos pretendem atuar na defesa jurídica dos direitos étnicos e territoriais dessas comunidades (projeto Luta pelo Reconhecimento dos Direitos Fundamentais das Comunidades Remanescentes de Quilombo) e realizar relatórios antropológicos a partir de um trabalho interdisciplinar (projeto Lições da Terra). Em agosto do ano passado, foi publicado no Diário Oficial da União o segundo termo aditivo do Ajuste de Cooperação Técnica entre o Incra e a PUC Minas para elaboração do Relatório Antropológico de Caracterização Histórica, Econômica, Ambiental e Sociocultural da comunidade remanescente de quilombo de Saco Barreiro, no município de Pompéu.

Outro exemplo de parceria bem-sucedida foi com a Unesco, pela qual a Universidade fez a gestão do Espaço Criança Esperança durante 15 anos, beneficiando por ano cerca de 1,5 mil moradores do Aglomerado da Serra, região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Além da Unesco, a Universidade também já firmou parcerias com a Organização Internacional do Trabalho, Fundo das Nações Unidas para a Infância, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, governo do Estado e prefeituras municipais.

Posição de vanguarda

As atividades de extensão começaram na Universidade em 1960, dois anos após a sua fundação, com a oferta de cursos e a promoção de eventos culturais, conforme conta o pró-reitor, professor Wanderley Chieppe. O fortalecimento da área se deu ao longo das décadas posteriores, com a criação, a partir de 1970, da Coordenação de Extensão, considerada o “primeiro passo para a institucionalização da extensão”. Na década de 1980, com a criação da Pró-Reitoria de Extensão (Proex), a Universidade já estava preparada para as demandas da sociedade. “Quando veio a nova Constituição Federal de 1988 e a nova LDB (Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional), de 1996, já havia um sistema de projetos e as bases para a realização da extensão”, explica.

A aprovação da Política de Extensão, em 2006, e do Regulamento da Extensão, em 2015, trouxeram avanços significativos. “O lançamento de um edital junto com a política de extensão abriu um canal de financiamento das ações de extensão e isso foi uma grande evolução. Os professores e estudantes faziam as ações voluntariamente. Com o financiamento, as ações se multiplicaram”. Já o Regulamento permitiu uma maior clareza sobre as modalidades de extensão, com destaque para duas delas: as práticas curriculares de extensão e a modalidade de produção cultural, científica e tecnológica. Esta possibilitou a criação da revista eletrônica Conecte-se! e o lançamento anual de dois e-books, ambos contendo a produção da acadêmica da extensão da PUC Minas.

A Extensão na formação

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Professor André Rocha Franco: “A extensão foi um grande ‘divisor de águas’ na minha trajetória acadêmica e profissional”

Qual o papel da extensão universitária na formação discente, na perspectiva do aluno de graduação? Esse foi o questionamento do estudo Aprendizado e Vivência Transformadora: a função educativa da extensão universitária na formação do aluno da PUC Minas Barreiro, coordenado pela professora Carolina dos Santos Nunan, do Curso de Engenharia de Produção do Campus Betim. De caráter quantitativo e qualitativo, a pesquisa foi realizada com participantes de projetos de extensão no período de setembro de 2016 e setembro de 2017. Este mesmo estudo está sendo desenvolvido em outras unidades.

Sobre a pergunta que motivou a pesquisa, a professora Carolina apresenta a visão sobre o papel da extensão: “Espera-se que a extensão tenha um papel transformador, contribuindo para que o aluno tenha uma visão ampliada de sua atuação na sociedade”. Entre os pontos mais significativos percebidos no estudo está o entendimento de que a extensão é uma atividade transformadora. A pesquisa indica também que a maioria dos alunos ingressa na extensão sem clareza do que é. Apesar disso, o envolvimento com a extensão é visto como um diferencial competitivo no currículo. O estudo aponta ainda a necessidade de uma maior visibilidade para a extensão nos primeiros períodos dos cursos. A pesquisa pode vir a contribuir para implantação de metodologias de intervenção e de avaliação das atividades extensionistas.

Um exemplo de estudante que teve a sua vida transformada pela extensão é o professor André Rocha Franco, do Curso de Ciências Biológicas do Campus Coração Eucarístico, que participou em dois projetos de extensão durante a graduação. “Eu estava bastante motivado em experienciar situações diferenciadas na minha formação, principalmente relacionadas à questão ambiental. A extensão foi um grande ‘divisor de águas’ na minha trajetória acadêmica e profissional”, diz. Ele conta que a experiência o inspirou na elaboração de trabalhos e projetos, além de ter contribuído para o recebimento de três premiações em nível nacional e internacional. Desde 2015, quando ingressou no Departamento de Ciências Biológicas, o professor André atua no projeto de extensão Universidade Sustentável. O projeto tem o objetivo de desenvolver tecnologias sustentáveis na Universidade, que possam ser reproduzidas por diferentes comunidades, visando uma gestão mais equilibrada dos recursos naturais.

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“O ICA nasceu dentro da perspectiva da Universidade contribuir com as organizações sociais, instituições públicas e a sociedade de modo geral”

Professora Rita de Souza Leal

Construção coletiva

Para se chegar ao atual patamar, tanto de qualidade no trabalho quanto no volume de projetos, a Pró-Reitoria de Extensão, que tem como uma de suas principais características o trabalho coletivo, teve, ao longo do tempo, a contribuição de muitos professores e funcionários, que ocuparam diversos cargos, tanto nos setores internos como nas dezenas de projetos de extensão. Uma dessas pessoas é a assistente social e professora aposentada Rita de Souza Leal, que foi umas das fundadoras do Instituto da Criança e do Adolescente (ICA) da Universidade e ocupou o cargo de assessora acadêmica da Proex durante dez anos, período em que, entre outras realizações, auxiliou na implantação das práticas curriculares de graduação.

“O ICA nasceu dentro da perspectiva da Universidade contribuir com as organizações sociais, instituições públicas e a sociedade de modo geral”, explica. De acordo com ela, o objetivo foi trazer para dentro da academia os problemas sociais e, junto com a sociedade, buscar uma melhor compreensão da complexa área da infância e da adolescência no país.

Durante a sua existência, que teve início em 1998, com os primeiros trabalhos, passando pela sua oficialização e vinculação à Proex em 2000 e o encerramento das atividades em 2017, o ICA estabeleceu parcerias com diversos órgãos, entre eles a Unesco, que resultaram em pesquisas, relatórios, capacitações, seminários, livros, cartilhas, revistas, vídeos e outras produções acadêmicas. “O ICA se tornou expert em diagnósticos sobre criança e adolescente em Minas Gerais”, lembra a professora Rita.

Além desse trabalho, a professora também coordenou a Extensão do Campus Arcos por quatro anos, ampliando o número de projetos e auxiliando na criação de órgãos como o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e o Conselho Tutelar do município; e coordenou o projeto Universidade Solidária, com o qual recebeu um prêmio nacional, de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido por ela e dez extensionistas de diversos cursos em Itajibá, na Bahia. O projeto foi concebido pelo governo para engajar estudantes universitários em programas voltados para as comunidades carentes no país.

 

 

Atuação em áreas diversificadas

Alguns projetos de destaque da Extensão
  1. Programa (A)penas Humanos | Ações interdisciplinares no âmbito da Apac (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado) – Contribui para a efetivação e aperfeiçoamento da política pública do Método Apac.

  2. Escola Integrada | Em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte, atua na educação complementar por meio de atividades socioeducativas.

  3. Projeto Articulando Redes, Fortalecendo Comunidades | Contribui para o fortalecimento dos vínculos comunitários nas comunidades Vila Cemig, São Gabriel, Lajedo e Izidora, em Belo Horizonte.

  4. Enriquecimento da Aprendizagem para Desenvolvimento de Habilidades | Tem foco em crianças e adolescentes com altas habilidades conhecidos como superdotados.

  5. Lições da Terra | Projeto interdisciplinar de direitos étnicos e Luta pelo Reconhecimento dos Direitos Fundamentais das Comunidades Remanescentes de Quilombo, desenvolvidos no Serro e outras regiões.

  6. Projeto Inserção dos Agricultores Familiares e Camponeses na Rede de Proteção Social do Regime Geral de Previdência Social | Relacionado à conquista de direitos previdenciários por pequenos produtores rurais de Betim e adjacências.

Texto
Fernando Ávila
Fotos
1Raphael Calixto
2Marcos Figueiredo
3Ricardo Ferreira Ribeiro
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