revista puc minas

Extensão Cultura quilombola em sala de aula

Foto-principal-11

Projeto de extensão forma professores quilombolas em escolas do município do Serro, no Vale do Jequitinhonha

Estórias, lendas, costumes, hábitos alimentares, padrões e formas de sociabilidade. Esses são alguns dos elementos que guiam a equipe do projeto de extensão Educação Escolar Quilombola no desenvolvimento de instrumentos metodológicos, didáticos e pedagógicos que serão utilizados por professores em escolas do Serro, na Região do Vale do Jequitinhonha, a 230 quilômetros de Belo Horizonte. As instituições de ensino parceiras atendem cerca de 60 crianças das comunidades quilombolas Baú, Ausente, Fazenda Santa Cruz, Vila Nova e Queimadas. A iniciativa, vinculada à Pró-Reitoria de Extensão, tem o objetivo de contribuir para a formação de professores quilombolas e coordenadores pedagógicos, além de elaborar materiais didáticos com conteúdos e formatos com os quais as crianças quilombolas se identifiquem.

As atividades são desenvolvidas desde 2015 por professores e alunos dos cursos de História, Geografia, Ciências Sociais, Letras, Pedagogia e Educação Física da PUC Minas, em parceria com a Secretaria de Educação do município e com as comunidades quilombolas locais, com o intuito de fortalecer a identidade desse segmento da população, por meio da educação. São oficinas, palestras, visitas, entrevistas, diagnósticos, rodas de conversa, atividades de interação entre membros das comunidades, alunos, professores, trabalhos orientados e leituras de textos, como explica o coordenador do projeto de extensão, professor Mário Cleber Martins Lanna Júnior. A partir dessas atividades, que têm o envolvimento das comunidades quilombolas e das escolas — o que é fundamental, como aponta o professor Mário — , os participantes do projeto desenvolvem as metodologias e os materiais didáticos para subsidiar as aulas dos professores. Alguns dos projetos desenvolvidos pela equipe foram quatro livros infantis, no formato de estória em quadrinhos, que apresentam as principais características culturais da vida quilombola. Neste ano, a equipe está empenhada na finalização desse material didático. “Esse é um resultado concreto do projeto e objeto de muito orgulho”, comemora o professor Mário Cleber. Isso porque o projeto pretende transformar os livros didáticos produzidos em publicações bem trabalhadas, para serem usadas em outras escolas no Serro, no ensino regular, e outras regiões de Minas Gerais e, eventualmente, de outros estados.

 

Foto-2-6

"A educação quilombola está em detalhes, como ensinar a forma de fazer sabão, passada dos pais para os filhos, está na relação que os moradores têm com a terra e com o rio"

Matheus Velozo

Motivado pelo conjunto de legislações e normatizações que definem diretrizes curriculares nacionais para a educação escolar quilombola na educação básica, entre elas a Resolução nº 8, de 20 de novembro de 2012, do Ministério da Educação/Conselho Nacional de Educação/Câmara da Educação Básica, no sentido de valorizar essa cultura, em especial, seus registros de memória, saberes, trabalho e práticas culturais, o projeto de extensão contribui para a atuação de professores como Maycon de Souza Ferreira, que trabalha na Escola Estadual Mestra Virginia Reis, com alunos quilombolas das comunidades de Vila Nova e Fazenda Santa Cruz. Segundo ele, são muitos os desafios em trabalhar nessa escola, que tem alunos quilombolas e não quilombolas. “O projeto de Educação Escolar Quilombola, promovido pela PUC Minas, do qual participo desde o seu início, me dá base para trabalhar os assuntos referentes à educação quilombola. É um grande norteador para esse assunto tão complexo”, explica Maycon.

Apesar de considerar a formação imprescindível para incentivar a identidade quilombola, ele avalia que ainda há muito o que aprender. Para isso, participa de eventos, seminários, cursos de capacitações e visita as comunidades sempre que tem oportunidade. A participação e o apoio de todos os envolvidos no projeto – professores, coordenadores pedagógicos, quilombolas, professores e alunos universitários – resultam em contribuições e retornos enriquecedores, segundo Maycon Ferreira, com demandas específicas e sugestões de atividades e métodos de abordagem e aproximação da cultura quilombola.

Benedito Crizóstomo Gomes, 66 anos, quilombola da comunidade São Gonçalo do Rio das Pedras, explica que nessa parceria o apoio é recíproco. Os alunos e professores da PUC Minas apoiam os quilombolas em suas necessidades, assim como os quilombolas apoiam os alunos e professores em suas pesquisas e estudos. Segundo ele, toda a comunidade quilombola aprova o projeto. “Estamos muito contentes. E está sendo bom para nós e para os professores e alunos também”, explica.

Matheus Velozo, extensionista do projeto em 2016 e graduado em História no ano passado, aprendeu sobre as questões relacionadas à pesquisa, metodologia, memória e identidade quilombola e destacou como a educação escolar quilombola está diretamente relacionada com esta cultura. “Foi no projeto que aprendi que educação escolar quilombola não está somente dentro da sala de aula. Está também nas relações cotidianas da comunidade, em suas histórias e contos, nas trocas de experiência dos moradores mais antigos e dos mais novos. A educação quilombola está em detalhes, como ensinar a forma de fazer sabão, passada dos pais para os filhos, está na relação que os moradores têm com a terra e com o rio”, analisa.

Para a equipe da Secretaria de Educação do Serro, o desenvolvimento do projeto foi de grande importância, por respeitar a cultura dos quilombolas. “Através desse trabalho, foi possível proporcionar às crianças quilombolas o estudo de sua cultura, que é tão valiosa. E isso é de grande importância porque a cultura é a raiz de toda história. O projeto, além de envolver os próprios alunos nas oficinas, envolve também as lideranças comunitárias e as pessoas das comunidades”, explica Matildes Severino Oliveira, coordenadora de projetos da Secretaria de Educação.

Além do projeto focado na educação como instrumento de fortalecimento da cultura quilombola, há outros dois projetos de Extensão da PUC Minas que têm contribuído nos processos de reconhecimento das comunidades quilombolas da região do Serro. Um deles é o Lições da Terra – projeto interdisciplinar de direitos étnicos; e o outro, A Luta por Reconhecimento dos Direitos Fundamentais das Comunidades Remanescentes de Quilombos, desenvolvidos com as comunidades quilombolas desde 2006 e 2009, respectivamente. A equipe dos projetos de extensão já produziu dois relatórios antropológicos de identificação e delimitação de territórios quilombolas entregues ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e estão elaborando outros três. Esses estudos multidisciplinares são passo fundamental para a conquista da terra pelas comunidades quilombolas.

 

foto-3-1

Quilombolas

  • Área de 2.720.579 ha
  • 296 quilombolas
  • 0,3% do Brasil

O que são comunidades quilombolas?

  1. São grupos étnicos, predominantemente constituídos pela população negra rural ou urbana, que se autodefinem a partir das relações com a terra, o parentesco, o território, a ancestralidade, as tradições e práticas culturais próprias. (Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário)

Quantas comunidades quilombolas existem em Minas Gerais?

  1. Existem comunidades quilombolas em pelo menos 24 estados do Brasil. Em Minas Gerais, estima-se a existência de aproximadamente 400 comunidades quilombolas em 155 municípios. As regiões do estado com maior concentração de comunidades quilombolas são a Norte e a Nordeste, com destaque desta última para o Vale do Jequitinhonha.
Texto
Bruna Santos
Fotos
Rossana Magri
Compartilhe
Fale Conosco
+Mais