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Educação Desigualdade de gênero na escola

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Os meninos têm mais tempo na quadra de esportes do que as meninas, em uma escola que foi alvo da pesquisa e ações de formação de professores

Programas de pós-graduação desenvolvem pesquisa e ações para mitigar prejuízos no processo de ensino-aprendizagem

Segunda-feira. Hora do recreio em uma escola pública de ensino fundamental de Belo Horizonte. Na quadra de esportes, apenas meninos. Todos do 7º ano. A cena se repete na terça, com a presença dos garotos, desta vez do 8º, e na quarta, do 9º. Quinta-feira é a vez das meninas. A situação imaginada, reflexo das regras de uso da quadra contidas em um cartaz afixado na instituição, mostra como a desigualdade de gênero está presente no cotidiano escolar, como também comprovam dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).

Baseada no relatório de 2012 dessa avaliação, uma pesquisa que vem sendo desenvolvida há três anos pelos programas de pós-graduação em Psicologia e Ciências Sociais, com continuidade em 2019, constatou que essa desigualdade tem causado impactos nos processos de ensino-aprendizagem nas escolas. Segundo o estudo, intitulado Relações de Gênero e Educação: estratégias de formação de professores(as) do ensino básico, há por parte da comunidade escolar uma percepção dessas desigualdades e, ao mesmo tempo, uma naturalização, além de dificuldades de incorporar reflexões no ambiente escolar. “A desigualdade é naturalizada quando ela é tratada como uma diferença, porque diferença não pode ser sinônimo de desigualdade. Porque a desigualdade inferioriza, coloca uns para baixo e outros para cima”, ensina a professora Maria Ignez Costa Moreira, da Psicologia, uma das responsáveis pela pesquisa e ações de formação de professores. “Quando a gente naturaliza, a gente fecha a questão, não tem o que discutir, é assim porque é assim e pronto acabou”, afirma ela, que atua em parceria com a professora Juliana Gonzaga Jayme, das Ciências Sociais. Outro fenômeno observado que também revela a desigualdade é a prática de violência de gênero, em suas diversas manifestações: psicológica, física, sexual.

“O que a teoria de gênero vai nos ensinar”, explica Maria Ignez, “é que não há uma mulher universal, um homem universal; existem vários modos de ser homem e vários modos de ser mulher, não é uma coisa só”. Para ela, a sociedade brasileira passa por um momento “extremamente conservador, reacionário, que não permite diferenças de pensamento”. Em 2014, por exemplo, a questão de gênero foi retirada do Plano Nacional de Educação, com efeito em cadeia nos estados e municípios. De acordo com a professora Juliana, o sentido da palavra gênero é “pouco conhecido e tem sido uma das palavras mais faladas no Brasil”, em uma alusão à “ideologia de gênero”, termo que vem sendo amplamente utilizado por setores da sociedade. Segundo as docentes, “ideologia de gênero” não existe, mas sim uma “epistemologia de gênero [campo de estudo]”. Considerada complexa, a temática perpassa diversas áreas, como Ciências Sociais, Psicologia, História, Educação, Direito, entre outras.

A pesquisa, que tem buscado compreender como fomentar relações sociais que produzam equidade na escola, vem realizando atividades de formação de professores da educação básica e fundamental de Belo Horizonte, em diferentes espaços e regiões – no Museu de Artes e Ofícios, na PUC Minas e nas próprias escolas –, possibilitando a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, o que tem contribuído para a formação de alunos e alunas da graduação e pós-graduação. “Não é só um projeto de pesquisa isolado da ação da Extensão. A Extensão tem nos apoiado porque esse é um projeto também de intervenção, atrelado à lógica do ensino. Temos estudantes que participam do projeto, que vão às escolas”, conta Maria Ignez.

A então estudante do Curso de Ciências Sociais Lorena Carlos Aiala, 26, e o estudante Humberto Mauro Gonçalves Mariano de Souza, 23, do 7º período de Psicologia, foram alguns dos participantes. De acordo com eles, o trabalho contribuiu para uma melhor articulação entre teoria e prática. “Pude colocar em prática algumas técnicas de pesquisa apreendidas na teoria durante o curso. Estar em campo é desafiador e instigante”, afirma Lorena. “O trabalho contribuiu de diversas formas para minha formação, principalmente por unir prática, as idas às escolas, onde vivenciávamos no espaço escolar as relações que ali se davam, os processos escolares e a análise de todo o material colhido através das teorias de gênero”, conta Humberto.

 

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Para Humberto Gonçalves, o projeto contribuiu para a articulação entre teoria e prática

Formação de professores para a igualdade

O trabalho de formação de professores, desenvolvido pela PUC Minas em conjunto com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), nasceu da interlocução com Secretaria Municipal de Educação (Smed); e da parceria entre os programas de pós-graduação em Psicologia e Ciências Sociais, uma vez que atividades extensionistas têm possibilitado a inserção social dos programas, ação valorada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/MEC). De acordo com a Smed, entre 2015 e 2018, 128 escolas participaram do projeto, envolvendo 1.071 professores. Vale destacar que no ano de 2017 a PBH fez a adesão ao programa ONU Mulheres – Plataforma 50/50, que prevê a equidade de gênero em todas as secretarias municipais, com destaque para uma educação não sexista e não racista.

No ano passado, foram realizadas atividades em quatro escolas, com as seguintes estratégias metodológicas: observação participante, entrevistas, rodas de conversa e seminários, em que foram trabalhadas as teorias de gênero, metodologias de intervenção e violência de gênero. A professora Juliana afirma que os professores e as professoras compreendem a importância de se trabalhar a temática, mas que “é muito difícil mudar uma lógica internalizada”. A professora Maria Ignez também reconhece essa dificuldade: “É uma temática extremamente delicada, porque essa diferença convertida em desigualdade revela relações de poder”.

Uma das instituições envolvidas é a Escola Municipal Luiz Gonzaga Júnior, localizada no Barreiro. De acordo com a coordenadora pedagógica, Maria do Carmo Sousa, além do envolvimento ativo com a Universidade, foram realizadas atividades com alunos de diversos ciclos de formação. “As rodas de conversa e leituras dialogadas incluíram a violência doméstica e o feminicídio. Também foram desenvolvidos trabalhos literários e apresentação de canções de autoras que empoderavam as mulheres, que foram trabalhados nas aulas de Português, Literatura e Artes”, conta. A escola também construiu, a pedido da Smed, um plano de convivência que busca, entre outros objetivos, fomentar a equidade entre meninos e meninas.

Segundo o gestor de políticas públicas da Smed, o psicólogo Cláudio Eduardo Resende Alves, o ponto de partida foi a publicação do caderno Diretrizes da Educação para as Relações de Gênero na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte, produzida em parceria com a PUC Minas. “É fundamental pensarmos em políticas públicas que se articulem com a academia, com o conhecimento científico, mais sistematizado, isso é uma meta inclusive da própria Smed”, diz o gestor. Um dos organizadores do livro Educação para as Relações de Gênero: eventos de letramento na escola, ele apresentou dados que mostram como a desigualdade também está presente na profissão docente no município: são 12.632 professoras, contra 1.418 professores.

 

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As professoras Juliana Jayme e Maria Ignez Moreira

Pisa: meninas melhores em leitura, e meninos, em matemática

Dados de 2012 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) mostraram desigualdade de gênero no desempenho em leitura e matemática, sendo a pontuação das meninas claramente melhor na primeira, e dos meninos, na segunda, respectivamente. Na área de ciências, no entanto, há equilíbrio de gênero, segundo o relatório.

O Pisa é uma iniciativa de avaliação comparada, aplicada de forma amostral a estudantes matriculados a partir do 7º ano do ensino fundamental na faixa etária dos 15 anos. É coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sendo, no Brasil, de responsabilidade do Inep.

 

Situações de desigualdade de gênero na escola

  • Cantinho de brinquedos específicos para meninas e meninos;
  • Desejo que meninas tenham letra considerada “bonita” e aceitação que meninos tenham letra considerada “feia”;
  • Filas específicas para meninas e meninos na hora da merenda;
  • Uso desigual da quadra de esportes: mais dias para os meninos e menos para as meninas;
  • Silêncio de professores diante de comentários ou piadas racistas, sexistas ou homofóbicas em sala de aula;
  • Na biblioteca, indicação de livros para meninas com temática romântica, de princesas; e para os meninos, de aventura e terror.

Fontes: Cláudio Eduardo R. Alves, Maria Ignez C. Moreira e Juliana G. Jayme.

Texto
Fernando Ávila
Fotos
Raphael Calixto
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