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Especial Era de extremos

Professores refletem sobre o radicalismo ideológico, que ataca a democracia, as instituições e nega a ciência

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“O WhatsApp permite que os usuários participem de grupos massivos, às vezes, com centenas de membros fortes, o que lhe dá um poder especial no Brasil. E, em um país com mídia altamente concentrada, tornou-se uma ferramenta organizadora e uma maneira fácil de manobrar em torno das estruturas tradicionais de notícias”

Professor David Nemer

No dia 7 de janeiro de 2021, uma multidão cercou e invadiu o Capitólio, o prédio em que se instala o centro legislativo federal do estado norte-americano. Os radicais tentaram impedir a confirmação da eleição do candidato Joe Biden, vencedor do pleito. O grupo havia se insuflado por meio de discursos do candidato derrotado e na época presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump. Antes disso, outro ato de manifestação de extremismo de direita ocorreu em solo brasileiro, no sábado, 13 de junho de 2020, quando a ativista Sara Fernanda Giromini, mais conhecida como Sara Winter, líder do movimento armado de extrema direita 300 do Brasil, lançou fogos de artifício contra o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília. Os manifestantes pediam a intervenção militar, a volta do AI-5 (Ato Institucional número 5), um marco da ditadura brasileira, e o fechamento do STF. Esses são apenas alguns dos exemplos em meio a uma onda de extremismo político e ideológico existente nos EUA, no Brasil e em outros cantos do mundo, que vêm à tona nos últimos tempos. Para entender o que há por trás dessa radicalização política e ideológica, como se instituiu essa cultura difusa do autoritarismo e como a política se torna agregadora de visões racistas, antidemocráticas, entre outras, ouvimos especialistas da PUC Minas e de outras universidades.

Na opinião do professor Robson Sávio Reis Souza, coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp), órgão da PUC Minas e da Arquidiocese de Belo Horizonte, e membro do grupo de análise de conjuntura política da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o País e o mundo passam por uma mudança epocal neste começo de milênio. “Isso desinstala o que está instituído, principalmente as instituições de poder”, observa.

Para explicar o momento atual, o professor Robson faz uma referência ao filósofo italiano Antonio Gramsci, que diz que a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo, e o novo não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece.

Esses sintomas mórbidos e perversos, segundo o professor Robson, se multiplicam na atualidade. “Essa mudança epocal reverbera de forma mais intensa e dolorida em uma sociedade desigual, injusta, autoritária, violenta, patriarcal, cujas elites e classes médias, historicamente impediram o avanço dos processos civilizatórios”, assinala o professor Robson Sávio.

A manifestação desses sintomas mórbidos ressoa na grande onda de extremismo de direita existente em muitos países atualmente. Nos EUA, de acordo com o professor de Estudos Internacionais da Universidade de Oklahoma, onde também co-dirige o Centro de Estudos Brasileiros, Fábio de Sá e Silva, a extrema direita contribuiu decisivamente para a eleição do presidente Donald Trump, que se apoia em grupos ressentidos de trabalhadores brancos e pobres. “Para os quais ‘o sonho americano’ se tornou inalcançável, já que não conseguem mais mandar os filhos para a universidade e podem ir à falência por qualquer problema de saúde”, explica o professor.

Grupos de Whatsapp

Grupos extremistas também ajudaram a eleger o presidente Jair Bolsonaro, como constata o professor David Nemer, especializado em antropologia de Informática, do Departamento de Estudos de Mídia, da Universidade da Virgínia. Ele monitora grupos de WhatsApp da extrema direita brasileira desde março de 2018, ano da última eleição presidencial brasileira.

A estimativa dele é que atualmente 120 milhões de pessoas, metade da população do Brasil, faça uso frequente do WhatsApp para quase tudo, como bate-papos em grupos maciços e divulgação e recebimento de notícias comunitárias, nacionais e até globais. “O WhatsApp permite que os usuários participem de grupos massivos, às vezes, com centenas de membros fortes, o que lhe dá um poder especial no Brasil. E, em um país com mídia altamente concentrada, tornou-se uma ferramenta organizadora e uma maneira fácil de manobrar em torno das estruturas tradicionais de notícias”, explica o professor.

A pesquisa do professor David Nemer indicou que os extremistas brasileiros se dividiram em pelo menos três subgrupos: os propagandistas, os supremacistas sociais e os insurgentes. “Dois deles apoiam em grande parte Jair Bolsonaro, um empurrando propaganda do governo e grupos de fake news para convencer o Brasil de que o que está acontecendo no governo brasileiro não está realmente acontecendo. Outro ampliando suas visões socialmente conservadoras de extrema direita, incluindo homofobia desenfreada, racismo e sexismo. Os membros da terceira coalizão tornaram-se uma espécie de insurgência na extrema direita, um grupo de brasileiros que sentem que Bolsonaro traiu sua causa e se tornou um dos seus adversários mais ferozes e radicais”, explica o professor Nemer, autor do livro Favela Digital, o outro lado da tecnologia, sobre o uso da tecnologia em bairros informais no Brasil.

Ele lembra que esses grupos migraram também para redes sociais, como youtube, e passaram a compartilhar links com o objetivo de monetização. Outra constatação é que apenas uma pequena fração de brasileiros pertence a esses grupos e que eles não são representativos de todos os eleitores do presidente Jair Bolsonaro, mas que todos revelam maneiras pelas quais as pessoas estão se radicalizando em aplicativos de mensagens como o WhatsApp.

A partir das jornadas de julho de 2013, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, a radicalização e o extremismo ganharam um novo rumo, na avaliação do professor Guilherme Ignacio Franco de Andrade, doutor em História, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e do Instituto Federal do Mato Grosso do Sul (IFMS). “Houve uma radicalização do pensamento político. O descontentamento de parte considerável da população brasileira com a corrupção da grande maioria dos partidos brasileiros, com a sensação de frustração e pouca representatividade política, com o desenvolvimento do antipetismo e do lavajatismo, fez com que essa onda conservadora influenciasse milhões a elegerem um presidente de extrema direita”, explica o professor Guilherme.

“Essas manifestações de 2013 e o impeachment da presidente Dilma Roussseff permitiram aflorar sentimentos que andavam um pouco reclusos”, diz a professora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, professora da USP e da Princeton University e curadora adjunta para Histórias do Masp, o Museu de Arte de São Paulo. De acordo com ela, até então o brasileiro zelava por uma imagem de muito receptivo, muito aberto, que servia de verniz para uma intolerância e um autoritarismo que ficavam escondidos e que estavam enraizados na própria história do País. Ela se remete a um certo “homem cordial”, que foi descrito em 1936 pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro Raízes do Brasil.

O que ocorre, no entanto, é que o conceito de “homem cordial”, que dá nome ao capítulo mais célebre desse livro, foi muitas vezes mal interpretado como elogio, observa a antropóloga. “Na verdade, ele queria expor uma representação do que queríamos ser”, explica Lilia Schwarcz, que lançou em 2019, o livro Sobre o autoritarismo brasileiro, pela Companhia das Letras.

Um Brasil pouco cordial pôde ser visto ainda em manifestações da esquerda brasileira. Elena Landau, Fernando Schüller, Leandro Piquet Carneiro e Samuel Pessôa, autores do artigo Desafios de uma Sociedade Aberta, publicado em 3 de agosto de 2020, no Jornal Folha de S. Paulo, relatam que o processo de polarização política da sociedade brasileira remonta também à retórica violenta da esquerda à época imediatamente anterior de sua chegada ao poder, com o “Fora, FHC” e seu esforço para estigmatizar e deslegitimar um governo de clara orientação social democrática. O ponto culminante foi a marcha dos 100 mil, em 1999, que reuniu mais de 100 mil simpatizantes da esquerda na Esplanada dos Ministérios em Brasília, oito meses depois do início do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso.

A nova extrema direita brasileira

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“Essa é uma estrutura discursiva que também é mobilizada pela extrema direita, apenas com adaptações quanto a quem é a ‘ameaça da vez’, que podem ser os ‘corruptos’, mas podem ser ‘comunistas’, homossexuais, negros, cientistas, jornalistas e outros”

Professor Fábio de Sá e Silva

Ao se buscar as raízes dessa nova extrema direita brasileira, percebe-se que esse segmento não é tão novo assim e tem diferentes matizes. O professor Guilherme Andrade observa que, na década de 1980, após a ditadura militar, ela já se manifestava com a presença dos skinheads, de grupos de neonazistas, de neofascistas, assim como de neointegralistas.

Apesar de fazerem parte de grupos extremistas, os neointegralistas não são representativos da atual extrema direita, na avaliação de Andrade. O movimento integralista teve seu auge na década de 1930, sob a liderança de Plínio Salgado, quando o fascismo estava avançando em vários países da Europa, principalmente na Itália, Alemanha, Espanha, França, Portugal e Inglaterra. Sendo a Alemanha e a Itália os principais modelos de inspiração para os integrantes da Ação Integralista Brasileira (AIB), que, durante as décadas de 1930 e 1940, tiveram certo sucesso no Brasil. “Não existe um grande projeto político integralista, não vejo influência dos militantes integralistas em altos cargos do governo ou que eles consigam dirigir qualquer pauta da sua ideologia no atual governo. Os integralistas podem até ter crescido em número nos últimos anos, principalmente nas redes sociais, mas isso não garante que eles sejam uma grande força política, portanto não existe evidência de um renascimento do integralismo hoje no País, como terceira força política, como na década de 1930”, afirma o professor Guilherme Andrade.

Mesmo sem a força do movimento integralista e de seus princípios, a nova extrema direita brasileira tem uma gramática própria, na avaliação do professor Fábio de Sá e Silva. Essa gramática é representada por quatro elementos: a identificação da corrupção como uma ameaça à existência da nação (câncer); a ideia de que a lei é um limitador no enfrentamento desse câncer e por isso é preciso reformá-la, em especial por concentrar poder nas mãos de agentes estatais (juízes e procuradores); a ideia de que quem discorda da avaliação ou dos demais meios de operação é um inimigo da nação; e a compreensão de que, afinal, pode-se violar a lei para combater a corrupção. “Essa é uma estrutura discursiva que também é mobilizada pela extrema direita, apenas com adaptações quanto a quem é a ‘ameaça da vez’, que podem ser os ‘corruptos’, mas podem ser ‘comunistas’, homossexuais, negros, cientistas, jornalistas e outros”, esclarece o professor Fábio de Sá e Silva.

Iliberalismo e visão simplista do mundo

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“A política democrática precisa construir uma narrativa capaz de convencer as pessoas que seu projeto societário é construtivo e não destrutivo (do meio ambiente, dos direitos fundamentais, da liberdade de expressão, da tolerância com as diferenças), como o da extrema direita”

Professor Eduardo Grin

Outra característica da atual extrema direita brasileira é o iliberalismo, na opinião de Thomas Bustamante, professor de Filosofia do Direito e coordenador do Programa de Pós-graduação em Direito da UFMG. Trata-se de uma ideologia que se vale de propaganda populista e de um discurso rancoroso em relação às instituições políticas de democracias liberais, reivindicando um fracasso do constitucionalismo e da democracia representativa. “Há múltiplas variáveis, mas um traço comum é uma ideologia antiestablishment, uma desconfiança no sistema político que visa eliminar as instituições do jogo democrático. Sustenta-se uma relação direta entre um líder carismático e o povo, sem intermediações, e também que a democracia parlamentar seja um sistema inerentemente corrupto”, enfatiza Thomas Bustamante.

De acordo com o professor, há um ingrediente que lhe parece genuinamente novo. “Há um anti-intelectualismo marcante, uma desconfiança em relação à racionalidade e aos princípios iluministas”, diz. Ele lembra que, na literatura mais recente sobre o tema, se costuma dizer que esse anti-liberalismo é, antes de mais nada, uma ideologia que desconfia da noção rawlsiana de ‘razão pública’, que pressupõe que a política se orienta por princípios racionais com os quais a deliberação pública está ou deve estar comprometida. “Para isso, ele tem que retirar a credibilidade de todas as instituições onde a razão pública possa florescer. Há um ataque desde os partidos políticos até às universidades, à imprensa, etc”, define.

Outro ponto do iliberalismo mencionado pelo professor Thomas Bustamente é o individualismo exacerbado. Com isso, o sujeito sente-se completamente desonerado de qualquer responsabilidade em relação a outros. “Qualquer coisa passa a ser ou socialismo ou ‘mimimi’. O sujeito faz questão de não mover uma palha para ajudar o próximo, e faz questão de tratar a si mesmo como completamente irresponsável em relação ao que pode acontecer com os demais”. Como exemplo desse comportamento, ele cita que o uso de máscara, ou o fato de lavar as mãos, ou fazer o para-casa com o filho, que está em homeschooling por causa da pandemia, ou dar uma folga para a sua faxineira, é visto como socialismo. “O sujeito quer uma licença para ser irresponsável, não ter de fazer qualquer sacrifício em nome do bem comum”, diz o professor Thomas Bustamante.

O coordenador do Programa de pós-graduação em Direito da UFMG não crê que haja um único apoiador do atual governo brasileiro que não esteja, em alguma medida, comprometido com o projeto antiliberal. O professor lembra que talvez a questão da vacinação contra a Covid-19 seja o maior teste para essa ideologia. “No caso da vacina, o negacionista, para ser negacionista até o fim, vai acabar impondo a si mesmo os ônus de sua decisão. Ou seja, ele vai se colocar como vulnerável, sofrer as consequências de sua decisão. Eu duvido que na hora de tomar a vacina essas pessoas vão ser coerentes. Acho que vai ter muita gente fazendo campanha contra a vacina na internet, mas tomando a vacina quando chegar a vez dele”, opina Bustamante.

Ele lembra, ainda, que o iliberalismo tem conseguido manter-se forte no Brasil em parte por uma expansão de um fundamentalismo cristão evangélico, que tem crescido exponencialmente. “Muitas vezes são religiões descentralizadas, que, diferentemente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, e da posição oficial da Igreja Católica no Brasil, pretendem repetir erros que em algum momento da história todas as religiões acabaram cometendo, que é contrapor religiosidade com a ciência. O enfraquecimento da separação entre Estado e Religião é um dos responsáveis pelo poder e influência dessa ideologia nefasta. Esse tema, por mais sensível que seja, não pode ser jogado para debaixo do tapete”, conclui.

O cientista político Eduardo Grin, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas/São Paulo, explica que a extrema direita encontra um terreno fértil para crescer quando se depara com problemas como o desemprego, perda de perspectiva pessoal e profissional derivadas das mudanças estruturais na economia e da globalização, com a internet gerando um mundo de poucos incluídos pela tecnologia e muitos excluídos, com o aumento da pobreza e da concentração de riqueza, a mudança climática e com a questão ambiental. “O desafio é que o discurso simplificador do mundo promovido pela extrema direita se opõe ao projeto da política democrática, que depende de as pessoas aceitarem regras, serem responsáveis como cidadãos em seus deveres e direitos e que democracias requerem aceitar as diferenças e o debate, o que não é nem simples de entender e de pôr em prática”, diz o professor Eduardo Grin.

Em sua concepção, uma política democrática precisa se afirmar de forma positiva e não como antagônica da política do autoritarismo, do cultivo ao racismo, ao xenofobismo. “A política democrática pode ser agregadora se for baseada em valores e princípios que sejam debatidos com a sociedade como uma forma de gerar uma vida coletiva melhor para todos. A política democrática precisa construir uma narrativa capaz de convencer as pessoas que seu projeto societário é construtivo e não destrutivo (do meio ambiente, dos direitos fundamentais, da liberdade de expressão, da tolerância com as diferenças), como o da extrema direita”, explica o professor da FGV.

Rumos da extrema direita

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“Da mesma forma que sua ascensão ao poder potencializou o surgimento de vários regimes de extrema direita pelo globo, inclusive no Brasil, sua derrota nos Estados Unidos gera uma tendência igual, de diminuição da disseminação deste tipo de ideologia”

Professor Danny Zahreddine

Sobre os rumos da extrema direita no mundo, o professor Danny Zahreddine, diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC Minas e professor do Departamento de Relações internacionais diz que a derrota do presidente Donald Trump nas eleições norte-americanas pode causar um grande abalo. “Da mesma forma que sua ascensão ao poder potencializou o surgimento de vários regimes de extrema direita pelo globo, inclusive no Brasil, sua derrota nos Estados Unidos gera uma tendência igual, de diminuição da disseminação deste tipo de ideologia”, explica o professor Danny Zahreddine.

No entanto, ele não acredita que a derrota de Trump tenha significado o fim do trumpismo, mas sim o seu enfraquecimento. Para sustentar essa opinião, ele lembra que mais de 70 milhões de americanos votaram em Donald Trump, mas que, com o episódio da invasão do Capitólio, citado nesta reportagem, sua popularidade diminuiu e perdeu o apoio de muitos conservadores americanos adeptos de sua causa. “Nesse sentido, podemos dizer que ainda existe um forte espaço para o trumpismo, tanto nos Estados Unidos como em outros países, mas com suas últimas ações no governo, seu poder de convencer a direita em continuar o apoiando diminui consideravelmente”, reforça o diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC Minas.

O professor Danny Zahreddine ainda verifica duas tendências para o governo brasileiro atual com a derrota de Donald Trump. O fim do apoio estadunidense às ações do governo brasileiro fará com que o Brasil se torne um centro de resistência e defesa do trumpismo e das ideologias de extrema direita por meio do bolsonarismo, o que pode trazer certo protagonismo a essa vertente política. Por sua vez, as ações do governo brasileiro calcadas na negação da ciência, na suposta disseminação de fake news e de teorias conspiratórias, o forçará a rever algumas políticas domésticas e internacionais, relativas principalmente ao meio ambiente, saúde pública e política externa em geral. Pelo menos é o que significativa parte da população brasileira espera.

 

A política de polarização

  1. Este processo, novamente aqui entendido como uma atuação antissistema político, se caracteriza por:

  2. A – Eleição de líderes populistas que conseguem criar uma narrativa que representam o povo contra as “elites”.

  3. B – No poder, estes líderes dão início a um processo sistemático de enfrentamento e deslegitimação das instituições políticas usuais nas democracias (partidos, parlamento, poder judiciário, imprensa, etc.).

  4. C – Negação dos valores democráticos, como o respeito à tolerância, diversidade, liberdade de expressão, entre outros.

  5. D – Tratamento dos adversários políticos como inimigos que devem ser eliminados, já que a lógica da competição política não se insere nessa visão de mundo.

  6. E – Desprezo pelo processo eleitoral, pois se o líder sabe o que o “povo” deseja, por que correr-se o risco de eleger um “inimigo” do povo.

  7. F – Uma visão niilista do mundo na qual o poder não é um meio de gerar políticas públicas para a sociedade, mas um fim para se perpetuar no poder.

  8. G – Uma visão de mundo caracterizada pela “arquitetura da destruição”, para tomar emprestado o título do filme que analisa o que foi o nazismo. O projeto político consiste em desmontar o legado de construção institucional, democrática e de políticas públicas, pois o foco é criar “um novo mundo” que negue aquele gerado pelas “elites” contrárias ao povo.

  9. H – Uma lógica política de facção que defende a parcela da sociedade que o apoia e ignora o restante da sociedade.

  10. I – Um modelo político baseado na relação direta entre o líder providencial e salvador e o “povo” (aqui uma característica comum com o fascismo e o nazismo), além de uma visão narcisista do líder político.

  11. J – Desprezo pela cultura e a defesa e propagação de valores conservadores e regressistas (por exemplo, contrário à diversidade sexual e casamentos que não sejam entre homem e mulher). Dado que se despreza a diversidade, que caracteriza a realidade cultural, o corolário é defender uma visão de mundo como se fosse universal.

  12. K – Nacionalismo extremado e desprezo pelo multilateralismo nas relações internacionais.

  13. L – Uso de canais diretos de contato do líder político com o “povo” como forma de mostrar a irrelevância das instituições políticas como mediadoras de diferentes visões de mundo típicas das sociedades democráticas. Aqui entram as redes sociais.

  14. M – Deslegitimação da liberdade de imprensa e do seu papel de informar e fiscalizar, pois só se aceita a “verdade” produzida pelo líder político e sua rede de produção de informação que, via de regra, são redes de fake news.

  15. N – Um rebaixamento da cidadania política, pois nessa distopia não há espaço para o contraditório e o diálogo, dada a lógica imperial e hierárquica com a qual o líder político se relaciona com a sociedade.

  16. O – Sendo uma visão distópica do mundo, a negação dos avanços não só democráticos, mas também na racionalidade científica e no conhecimento acumulado. Nessa linha, irracionalidade e propagação de “fatos alternativos” visam desinformar a população de forma irresponsável para gerar confiança apenas no que diz o “líder do povo”. O negacionismo científico aqui se encaixa.

  17. Fonte: Professor Eduardo Grin

 

EXTREMISMO NO MUNDO

  1. SUÍÇA

  2. O Partido Popular Suíço (SVP), de extrema-direita, que tem a maior força no parlamento suíço, adota uma política de anti-imigração, endurecendo regras para a imigração de refugiados.

  3. POLÔNIA

  4. O presidente Andrzej Duda venceu as eleições com 51,21 % dos votos em julho de 2020. Ele apoia ações xenofóbicas contra imigrantes e contra o reassentamento de refugiados na Polônia.

  5. HUNGRIA

  6. O líder populista e ultraconservador Viktor Orban, em sua terceira eleição, estipulou a lei da escravidão, que deu aos patrões o direito de exigir dos empregadores 400 horas extras por ano (hoje, são permitidas 250 horas). Ele iniciou a “limpeza étnica” contra ciganos e refugiados sírios, aprovou a bandeira antissemita da Lei Stop Soros, com a expulsão de estrangeiros, aposentou juízes da corte suprema e criou um sistema judicial paralelo ao Poder Executivo.
    FILIPINAS

  7. FILIPINAS

  8. O presidente Rodrigo Duterte foi eleito com a promessa de acabar com o tráfico de drogas internacional e já travou batalhas que deixaram milhares de mortos em operações antidrogas. Grupos de direitos humanos o acusam de executar usuários de drogas, além dos traficantes. Na pandemia, impôs uma dura quarentena no país com ameaças de prisão e até de morte para quem fosse flagrado desrespeitando o isolamento social. O Partido Democrático Filipino (PDP), de Dutente, adota uma política anti-imigratória, principalmente contra muçulmanos.

  9. TURQUIA

  10. O líder islâmico Recep Tayyip Erdogan, que ocupa o poder desde 2002, foi reeleito com 53% dos votos, em junho de 2019. Ficou 11 anos como Primeiro Ministro da Turquia e foi o primeiro presidente eleito por voto direto do país em agosto de 2014. Ele é considerado ultraconservador, responsável pela promoção e demissão em cargos do primeiro escalão. Demitiu 107 juízes, mais de 18 mil funcionários públicos, 33 mil professores e cinco mil acadêmicos. Ainda alterou a constituição do país, visando às eleições de 2023 e ampliar o seu mandato por mais uma década.

  11. ITÁLIA

  12. A Liga, partido italiano de extrema-direita, foi apenas a terceira agremiação mais votada na eleição de março de 2018, na Itália, mas conseguiu vencer uma coalização de governo com o partido Movimento Cinco Estrelas (M5S) para governar a Itália. O líder da Liga, Matteo Savani, já se referiu aos refugiados como “carne humana” e proibiu navios de refugiados de atracar em portos italianos, com uma declarada política de xenofobia.

 

MOVIMENTOS ANTIEXTREMA DIREITA

  1. MÉXICO

  2. Em 2018, Andrés Manuel López chegou à presidência, e Claudia Scheibaum foi eleita prefeita da capital mexicana. Considerado líder moral da esquerda mexicana por décadas, Andrés tem o apoio da prefeita que vai comandar a maior cidade de língua espanhola do mundo até 2024.
    EQUADOR

  3. EQUADOR

  4. O primeiro turno das eleições do Equador, em 7 de fevereiro, de 2021, decretou a vitória do candidato Andrés Arauz, de orientação esquerdista.

  5. BOLÍVIA

  6. A eleição do presidente Luis Arce, do Movimento ao Socialismo (MAS) em outubro de 2020, evidencia uma derrota das forças conservadoras bolivianas , que assumiram o poder no país e forçaram a renúncia do presidente Evo Morales, em 2019, durante um ano de convulsões durante o governo interino de Jeanine Áñez.

  7. ARGENTINA

  8. Com tendências de esquerda, em 2019, o peronismo (movimento fundado por Juan Domingo Perón), ganhou as eleições argentinas. O presidente Alberto Fernandez tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, que é sua mentora política. A eleição se deu após um mandato de quatro anos do conservador Maurício Macri.

  9. FRANÇA

  10. O governo francês anunciou em fevereiro de 2021, o início do processo de dissolução do Movimento de extrema direita Geração Identitária. A decisão foi informada pelo ministro francês do Interior, Gérald Darmanin. O grupo supremacista branco, ultranacionalista e anti-imigração, composto por mil integrantes, ganhou visibilidade promovendo ações midiáticas extremas.

  11. GRÉCIA

  12. A corte grega declarou, em 7 de outubro de 2020, que o partido de extrema direita Aurora Dourada é um grupo criminoso. Baniu a organização radical que já foi a terceira maior liderança do país grego. Seu fundador, Michalokiakos, foi condenado a 13 anos de prisão. O partido praticou uma série de ações criminosas no decorrer de sua existência.

  13. FONTES: JusBrasil, El País, Uol, BBC, CNN e Opera Mundi

Texto
Edson Cruz
Ilustração
Quinho
Fotos
1Arquivo Pessoal
2Bruno Timóteo
3M. Pisani/El País
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