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Psicologia Escuta transformadora

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Pesquisa trabalha a clínica do testemunho com adolescentes em semiliberdade

"Me envolvi com drogas, más companhias, acabei errando. Hoje vejo um lado positivo em tudo isso, porque aprendi a ver um novo lado, a viver de outra forma, sabe?"

W.A.M.

Os dados alarmantes revelados pelo Mapa da Violência no Brasil, que aponta um aumento significativo em relação à violência contra os jovens brasileiros nos últimos 30 anos — mortes não naturais e violentas cresceram 207,9% no período, segundo dados de 2014 — alertam para a necessidade de orientar melhor estes jovens em vista de um futuro melhor. Com o objetivo de dar voz a adolescentes que cumprem medidas socioeducativas, duas estudantes do Curso de Psicologia realizaram, sob orientação da professora Jacqueline Moreira, intervenção em três casas de semiliberdade localizadas em Belo Horizonte durante o ano de 2016, buscando compreender os fatores contribuintes para a imersão desses jovens na criminalidade.

Utilizando um método raramente adotado no Brasil e no mundo, as estudantes realizaram uma intervenção de escuta conhecida como clínica do testemunho, que é indicada em casos que o paciente passou por situações traumáticas. “A técnica foi utilizada após a segunda guerra mundial, com as vítimas do holocausto, e, posteriormente, em países onde várias pessoas sofreram com regimes ditatoriais, como Brasil e Argentina. É um método que tem uma ligação muito forte com a psicanálise, já que trabalha a ideia de recordar e reconstruir essa lembrança. Nosso aporte teórico é a psicanálise freudiana”, esclarece a professora Jacqueline Moreira.

O trabalho, de acordo com as pesquisadoras, tem um caráter inovador por apresentar resultados a partir de uma perspectiva que ainda não havia sido analisada. “Nosso objetivo é dar voz a esses adolescentes. Hoje temos diversas análises produzidas por sociólogos e psicólogos que falam e analisam o tema, mas não há uma perspectiva produzida a partir do testemunho dos jovens. Não se sabia a respeito da angústia, da apreensão que eles sentem ao voltarem para casa, diante da possibilidade de receberem ameaças e correrem riscos, entre outros fatores”, afirma Juliana Morganti, aluna do 8º período do Curso de Psicologia e integrante do projeto de pesquisa.

Segundo a estudante Jéssica Duarte, também do Curso de Psicologia, a metodologia envolve, além da escuta, a percepção da realidade dos jovens entrevistados. “A partir das entrevistas, pudemos perceber como as letras de rap conversam com a realidade deles; fizemos uma aproximação dos testemunhos que colhemos com as composições do grupo Racionais e elementos como a morte, a pobreza e a discriminação puderam ser percebidos em ambos os contextos”, diz. Para ela, foi importante ter “jogo de cintura” na abordagem dos alunos para compreender o linguajar diferenciado. “A linguagem teve de ser bem trabalhada para entendermos os termos utilizados por eles, como ‘fazer um corre’, ‘pegar uma semi’, entre outros”, explica.

A partir das entrevistas realizadas com os adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas em casas de semiliberdade, o grupo pôde identificar que os adolescentes entrevistados localizaram a morte de um ente querido como elemento traumático que os levou a entrar no mundo da criminalidade. Outro fator percebido pelas pesquisadoras foi a sedução pelo poder proporcionado pelo crime, já que os criminosos ganham destaque nas comunidades, ainda que com um viés negativo.

 

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As alunas Juliana Morganti e Jéssica Duarte realizaram intervenção em três casas de semiliberdade para compreender os fatores contribuintes para a imersão desses jovens na criminalidade

Mentalidade diferente

Um dos entrevistados no projeto, W.A.M. passou pela medida socioeducativa de semiliberdade e foi desligado no fim de 2016, já com uma mentalidade diferente. “Hoje vejo que nenhum motivo justificava a minha atitude. Me envolvi com drogas, más companhias, acabei errando. Hoje vejo um lado positivo em tudo isso, porque aprendi a ver um novo lado, a viver de outra forma, sabe?”, conta ele, que precisou de dinheiro e, para não prejudicar as finanças da família, que já passava dificuldades, cometeu um ato infracional à época em que foi direcionado à semiliberdade. Hoje, ele tem como hobby a composição de músicas de rap. “Minha inspiração para compor vem de Deus”, afirma.

De acordo com a professora Jacqueline, o resultado esperado foi alcançado durante o projeto. “Quando escutamos, percebemos que eles efetivamente reconstroem a história. Um deles percebeu durante a entrevista que ele havia feito uma escolha errada para seu caminho e afirma, ao contar a história dele, que poderia atribuir a culpa às más companhias, mas sabe que tinha alternativas possíveis em vez de entrar no crime”, diz Jacqueline.

A então diretora de gestão da medida de semiliberdade, Maria Vasconcelos, ressalta os benefícios do projeto que ela acompanhou de perto. “O lugar da fala e da escuta na medida socioeducativa é muito valioso, principalmente quando a escuta é mediada por agentes externos, como foi o caso do trabalho executado pelas estudantes da PUC Minas com a orientação da professora Jacqueline. Entendemos que esse processo influencia na história de cada um e contribui com a reflexão a respeito da medida socioeducativa”, afirma ela, que hoje é diretora de Abordagem Familiar e Articulação de Rede Social na Secretaria de Estado de Segurança Pública.

O jovem W.A.M, que hoje, aos 18 anos, vende balas para ajudar sua mãe com as contas da pequena casa de dois cômodos, se revela muito grato pela oportunidade oferecida pelo projeto. “Na verdade, gostaria de ter outra chance para continuar conversando, para contar mais sobre o meu processo de mudança. Hoje larguei o crime, larguei drogas, larguei tudo, Graças a Deus. A ‘semi’ [sic] e os projetos de que participei foram muito importantes para essa transformação”, diz ele, que sonha em estudar e conseguir boas oportunidades no mercado de trabalho.

Texto
Lídia Lima
Fotos
1Wayhonestudio / Shutterstock
2Rossana Magri
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