revista puc minas

Diálogos Fortalecer a cidadania

“Vive-se, neste tempo, um clima permanente de desconfiança, enraizado no medo do outro, na ansiedade da perda das próprias vantagens”

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Grão-chanceler da PUC Minas
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, presidente da CNBB

“Cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da Casa Comum”. Essa indicação do Papa Francisco tem especial valor para a sociedade brasileira, tão ferida pelas polarizações, violências, que geram verdadeiro abismo entre as pessoas. Um cenário que dificulta o exercício da cidadania, pois a vida política autêntica, conforme bem define o Papa, se funda no direito e em um diálogo entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Reconhecer a dignidade do outro, que é irmão, constitui condição imprescindível para o frutuoso exercício da cidadania. Vale, pois, exercer a capacidade para identificar pontos de convergência, compreendendo que cada pessoa é diferente, singular, mas todos são semelhantes.

Vive-se, neste tempo, um clima permanente de desconfiança, enraizado no medo do outro, na ansiedade da perda das próprias vantagens. Esse medo, conforme indica o Papa Francisco, contamina também o ambiente da política, com atitudes de fechamento. Constata-se isso ao observar o que ocorre em contexto mais amplo, no mundo, com as violentas reações a processos de migração. Mas também faz parte da realidade brasileira, em que grupos são desrespeitados em sua dignidade e permanecem excluídos. Não há democracia saudável sem qualificado exercício da cidadania, o que pressupõe inclusão, diálogo, respeito. As polarizações que persistem desde o período eleitoral indicam que o Brasil está muito distante desse cenário ideal.

Torna-se oportuno lembrar um importante ensinamento do Papa Paulo VI, quando diz que “tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade”. No contexto brasileiro, é fundamental que cada pessoa busque reconhecer os valores que definem a pátria, os elos que interligam diferentes culturas, de norte a sul do país. Eis um caminho para identificar pontos de convergência e criar a proximidade mínima necessária para a vivência da cidadania.

Para existir essa convergência é preciso valorizar princípios que balizem condutas nos parâmetros da ética. Ora, a conduta ética, necessária ao exercício qualificado da cidadania, alicerça-se na verdade. Não pode se alinhar ao desejo de enganar, ao egoísmo que leva a manipulações de instituições e pessoas, para o próprio favorecimento. A meta de toda atitude cidadã deve ser o bem comum.

Talvez por isso, no Brasil e em tantos lugares no mundo, o qualificado exercício da cidadania esteja em risco. Em vez de almejar o bem comum, as pessoas tornam-se cegas pela idolatria do dinheiro. Sucumbem-se à ganância, tornando-se escravas das próprias ambições. Um dos sintomas dessa triste realidade é a corrupção. Valer-se de posições na hierarquia de empresas, instituições, ambientes políticos e governamentais, deixando-se guiar pela idolatria do dinheiro, é correr sério risco de se trilhar o caminho da corrupção, ferindo a própria democracia.

Cada pessoa busque superar visões egocêntricas, que incapacitam enxergar os problemas dos outros, principalmente de quem é mais pobre, para fortalecer o exercício da cidadania. As qualificadas atitudes cidadãs exigem a superação de um individualismo doentio, que gera indiferença e estreitamentos, para que prevaleçam a fraternidade, a justiça e a paz.

Texto
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Grão-chanceler da PUC Minas Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, presidente da CNBB
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