revista puc minas

Agronegócio Gestão no ambiente rural

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Pesquisa aponta a necessidade de visão mais estratégica, buscando fatores relevantes que influenciam diretamente no trabalho

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“Não há mais espaço para a ineficiência da gestão empresarial rural. A agropecuária é responsável por 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio mineiro”

Rafahel Carvalho de Souza
Professor e coordenador do Hospital Veterinário do Campus Betim

Durante muito tempo, sem a exigência de um gerenciamento qualificado, os processos de aprendizado nos ambientes rurais aconteciam da seguinte maneira: o chefe mostrava como fazer, o subordinado aprendia e, depois, repassava o conhecimento aos seus filhos. Hoje, embora as empresas rurais ainda tenham uma gestão bastante empírica em muitos processos, o cenário pede uma transformação na cultura organizacional deste setor. É o que indica a pesquisa Perfil Sociocultural de Colaboradores Rurais de Propriedades da Região Central do Estado de Minas Gerais, que, entre outros resultados, apontou que reconhecimento, relacionamento com o supervisor e com os colegas são fatores mais motivadores para o trabalho do que o salário.

Realizada por Rubens Donato Fernandes, ex-aluno da PUC Minas no Curso de Medicina Veterinária, juntamente com o professor Rafahel Carvalho de Souza, do Departamento de Medicina Veterinária e coordenador do Hospital Veterinário do Campus Betim, o estudo analisou dados motivacionais de colaboradores que atuam em áreas rurais de nove cidades mineiras. A pesquisa analisou, aleatoriamente, o perfil de cerca de 130 funcionários de fazendas e selecionou 11 fatores para avaliação: salário, regulamentação trabalhista, reconhecimento, função exercida, recebimento de responsabilidades, relacionamento com o proprietário, relacionamento com os colegas, relacionamento com o seu supervisor imediato, localização da empresa, condição de trabalho e estabilidade empregatícia. Os fatores poderiam ser classificados como motivadores, indiferentes, pouco motivadores ou não motivadores.

O fator considerado mais motivador, com 96% de escolha dos entrevistados, foi o relacionamento com os colegas. “O resultado nos surpreendeu. Afinal, não é a remuneração a principal motivação. Não é viável focar apenas em técnicas para aumentar a produção, é necessário ter uma visão mais estratégica do ambiente das empresas rurais, buscando inclusive quais são os fatores relevantes que influenciam diretamente no trabalho”, afirma o professor Rafahel.

Em segundo lugar na pesquisa aparece o relacionamento com o supervisor (91%) e, em terceiro, o reconhecimento (87%). “Quando os colaboradores rurais percebem que seus superiores, inclusive os proprietários das fazendas, pensam neles, proporcionando melhor ambiente de trabalho e contribuindo para sua qualidade de vida, essas pessoas trabalham motivadas e tornam as atividades desenvolvidas mais eficientes. É preciso mudanças na maneira de agir em relação à gestão de pessoas nas fazendas”, observa o professor.

“O resultado das mudanças no modo como a empresa gere sua produção aponta para a necessidade dos produtores do meio rural se atentarem mais aos seus colaboradores”

Professora Antônia Montenegro, orientadora da pesquisa

De acordo com o ex-aluno Rubens, a iniciativa foi motivada pela necessidade de modificar e melhorar a eficiência dos colaboradores desses ambientes, além de fomentar o reconhecimento das profissões. “Quando iniciei meu primeiro estágio, ainda no terceiro período, percebi logo nos primeiros dias a necessidade de melhoria nos relacionamentos dentro da fazenda. O ordenhador, por exemplo, não sabia como pedir um par de botas novo para o gerente; o gerente, por sua vez, não sabia como falar com o ordenhador que seu filho não poderia ficar no ambiente de trabalho durante o expediente. Parece pouca coisa, mas não é. Se essas situações não eram resolvidas, imagine as mais complexas, como prestação de contas?”, questiona Rubens. Para ele, a principal mudança em busca de uma gestão eficiente é desmembrar a cultura organizacional familiar desses ambientes. “É sabido que as fazendas trazem consigo uma raiz cultural familiar tradicional e, talvez, seja o setor que mais sofra com esse fator. Com isso, as mudanças se tornam lentas”, conclui.

As necessidades vão além de um ambiente harmonioso e atingem diretamente a lucratividade. “Não há mais espaço para a ineficiência da gestão empresarial rural. A agropecuária é responsável por 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio mineiro. A eficiência do mercado exige que os patrões comecem a ver os funcionários como colaboradores”, afirma o professor Rafahel.

Compreensão dos processos operacionais

Há oito anos e meio, Fábio Junio Domingos, 36, foi contratado como ajudante em uma empresa de agronegócios, localizada na cidade de São Gotardo, no Triângulo Mineiro. Com o tempo, ele se capacitou, avançou postos dentro da instituição e, atualmente, é gerente de produção. “Quando entrei aqui, as coisas eram bem diferentes. Com o passar dos anos, a empresa percebeu a necessidade de um investimento em gestão de pessoas e abraçou essa experiência.

Atualmente, as funções dos colaboradores foram desmembradas para que cada um tenha um enfoque em determinada área. Com isso, os funcionários pararam de repetir as atividades solicitadas. Agora, eles compreendem os processos operacionais e os porquês de estarem fazendo uma atividade específica. Isso é muito importante, pois faz com que o colaborador sinta-se parte da empresa”, observa o técnico em agropecuária. Hoje, antes de finalizar a contratação, a empresa analisa o perfil da pessoa ingressante para direcioná-la a determinado setor. “Esta pesquisa de perfil faz com que o colaborador se identifique com as atividades que exerce. Com isso, todos ganham, inclusive, produtividade. O resultado das mudanças no modo como a empresa gere sua produção aponta para a necessidade dos produtores do meio rural se atentarem mais aos seus colaboradores”, destaca Fábio.

 


Motivação para o trabalho no campo

Proporções das escolhas dos entrevistados em relação aos fatores avaliados (%):

Fatores avaliados

 
Motivador

 
Indiferente

 
Pouco Motivador

 
Não Motivador

Função
exercida

 

Localização
da Empresa

 


Salário

 

Trabalho Regulamentado

 

Recebimento de Responsabilidades

 


Estabilidade empregatícia

 

Relacionamento com o dono

 

Condições de trabalho

 


Reconhecimento

 

Relacionamento com o supervisor

 

Relacionamento com os colegas

 

Texto
Lorena Scafutto
Fotos
1Marco Fábio Graça Fatori
2Rossana Magri
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