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Especial Guinada conservadora

Esse tipo de tendência tem reverberado de forma global na educação, na cultura, no comportamento e em outros segmentos

 
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"Não conservadores gostam de gastar o dinheiro dos outros em suas próprias abstrações. Essa é uma ideia tipicamente conservadora"

Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor da PUC-SP

Duas recentes pesquisas de dois conceituados institutos (Datafolha e Ibope) publicadas em dezembro de 2016 identificaram um alto grau de conservadorismo entre os brasileiros. O sintoma se relaciona intrinsecamente a uma onda que, na política, atingiu países europeus e os Estados Unidos (veja quadro nesta reportagem), mas tem reverberado ainda na educação, na cultura, na economia, na religião, no pensamento sobre temas de interesse público e no comportamento das pessoas, entre outros.

A pesquisa do Datafolha ouviu 805 estudantes do 8º e 9º anos do ensino fundamental e 408 pais. Segundo os analistas do instituto, há muita divergência entre as duas gerações sobre muitas questões, mas é possível perceber a tendência conservadora. Foram abordados temas como maioridade penal, legalização das drogas, homossexualidade, pena de morte e porte de armas.

Enquanto isso, a pesquisa do Ibope identificou que 54% dos brasileiros apresentam alto grau de conservadorismo com relação a questões controversas, como casamento entre pessoas do mesmo sexo, pena de morte, prisão perpétua e redução da maioridade. Comparando os dados com os da última sondagem semelhante feita pelo instituto em 2010, os analistas do Ibope disseram que o conservadorismo aumentou entre todas as faixas etárias em ambos os sexos, em todas as religiões e em quase todas as regiões e níveis educacionais.

Mas o que é ser conservador? Autor do livro O que é Conservadorismo (editora É Realizações), o filósofo britânico Roger Scruton diz que, a grosso modo, os conservadores são pessoas que estão cientes do fato de que herdaram algo bom. Uma ordem social, um sistema político, uma cultura, uma tradição jurídica, e eles querem permanecer com isso. Querem conservar tudo isso.

Autor de 13 livros, sendo o mais recente Filosofia para Corajosos (editora Planeta do Brasil), o filósofo e professor da PUC-SP Luiz Felipe Pondé concorda que há uma tendência conservadora, mas ressalta que é importante lembrar que conservador ou liberal-conservative, em inglês, é uma tradição filosófica que nasce do ceticismo, e não de qualquer prática religiosa ou reacionária. “Um conservador, para além do debate banal, é alguém que, como define Edmund Burke (século 18, considerado por alguns como o “pai do conservadorismo”), duvida da racionalização abstrata no campo social e político e prefere a experiência e os hábitos constituídos”, explica.

Citando o filósofo e teórico inglês Michael Joseph Oakeshott FBA, Pondé diz que a sensibilidade conservadora tende a aparecer quando pessoas acham que os políticos “estragaram” muito a sociedade a partir de experimentações e excessos de políticas públicas que prejudicam o bolso e o cotidiano de quem tem que pagar por elas. “Não conservadores gostam de gastar o dinheiro dos outros em suas próprias abstrações. Essa é uma ideia tipicamente conservadora”, diz o filósofo, que se caracteriza como um defensor incontestável do conservadorismo.

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"“Com essa questão do capital, estamos vivendo uma onda fascista, moralista, xenófoba e misógina, permeada de sentimento de ódio"

Robson Sávio Reis Souza, sociólogo e professor da PUC Minas

Para o sociólogo e professor da PUC Minas Robson Sávio Reis Souza, o conservador é essencialmente individualista e só se preocupa em manter o seu status quo. Além disso, cultua o rentismo, ou seja, vive de aplicações de capitais, e só pensa em concentrar rendas. “Com essa questão do capital, estamos vivendo uma onda fascista, moralista, xenófoba e misógina, permeada de sentimento de ódio”, diz o professor Robson Sávio, que coordena o Núcleo de Estudos Sociopolíticos (Nesp), órgão da PUC Minas e da Arquidiocese de Belo Horizonte.

Segundo ele, essa onda conservadora defende uma moral de uma classe média que tem, na conservação de certos valores, a base do que deseja ser a sociedade. “Contudo, esses mesmos valores que ela tenta conservar são valores que excluem a participação dos demais. Trata-se de uma moral excludente porque não amplia a participação do diferente, sob o ponto de vista das classes sociais, das etnias, da orientação sexual, das religiões. Então tudo que é diferente tem que ser excluído”, explica o viés fascista do conservadorismo.

Professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, Edward Neves M. B. Guimarães diz que partidos, forças e sujeitos sociais, geralmente, são denominados ultraconservadores, tradicionalistas, nacionalista, de direita porque levantam determinadas bandeiras e defendem ideias ou posturas específicas. Entre elas, a naturalização e manutenção do status quo desigual; políticas neoliberais com Estado mínimo, sem intervenção no mercado; manutenção dos privilégios das classes abastadas que detêm o poder, com o pagamento mínimo de impostos, ou seja, que todos paguem os mesmos impostos, independentemente de serem ricos ou pobres, em detrimento de direitos sociais, de políticas de transferência de rendas, de taxação de grandes fortunas e de implantação da igualdade cidadã de todos perante a lei; direitos individuais. Os conservadores ainda lutam por direitos individuais de acumulação de propriedades, instituição, meios de comunicação e valores econômicos, e não reconhecem a dignidade do estrangeiro (migrante e refugiado), do indígena, do homossexual, do negro e da mulher.

O poder da mídia

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"É importante tomar ainda mais consciência do quarto poder exercido pela mídia, seja na formação da opinião pública, seja no poder da imagem social para determinar tendências e posturas da sociedade e do poder público"

Prof. Edward Neves M. B. Guimarães

A onda conservadora também respingou na mídia brasileira. De acordo com o professor Edward Guimarães, há elementos novos que devem ser levados em consideração com relação às mudanças de atuação dos sujeitos sociais, de atuação de grupos que se apropriam dos meios de comunicação e de como usam as redes sociais.

“Hoje, mais do que em qualquer outra época, devemos nos preocupar com quem decide o que vai ser notícia e o que não vai; quem decide o enfoque de cada notícia e com qual viés ela será abordada. É importante tomar ainda mais consciência do quarto poder exercido pela mídia, seja na formação da opinião pública, seja no poder da imagem social para determinar tendências e posturas da sociedade e do poder público.”

A mídia é essencialmente conservadora, apesar de eventuais brechas ou fissuras em seus quadros logotécnicos, diz o professor Muniz Sodré. “É o braço forte do marketing. Politicamente, ela poderia ser vista como aquele ‘intelectual orgânico’ teorizado por Gramsci ou, melhor talvez, como ‘intelectual coletivo’ (termo de Togliatti) das classes dirigentes.”

O governo e as políticas sociais

O estado mínimo a que se refere o professor Edward Guimarães pode ser identificado atualmente por pelo menos duas propostas apresentadas na Câmara dos Deputados. Uma Proposta de Emenda à Constituição, já aprovada em Comissão Especial, e que deverá ser votada no Congresso em breve, prevê transferir para o Legislativo a competência para demarcar terras. Isso, de acordo com especialistas, impossibilitará, na prática, futuras demarcações. Além disso, transformará terras tradicionais em equivalentes da propriedade rural. Com isso, elas poderão ser arrendadas, divididas e permutadas e ainda receber empreendimentos econômicos, o que permitiria a investida do agronegócio e das mineradoras sobre as terras indígenas homologadas.

Com relação ao desarmamento, outra Comissão Especial já aprovou o que significa na prática a revogação do Estatuto do Desarmamento. Dessa forma, o porte de armas, que hoje é restrito a policiais e a determinadas autoridades, como juízes, poderá ser conferido a qualquer pessoa com requisitos mínimos. Também está estacionada a ratificação pelo Brasil do Tratado de Comércio de Armas. Esse tratado regula o comércio internacional de armas para evitar que elas sejam extraviadas e utilizadas para cometer, por exemplo, genocídio, que geralmente é definido como assassinato deliberado de pessoas motivado por diferenças étnicas, nacionais, raciais, religiosas e, por vezes, sociopolíticas.

Confirmando a tendência conservadora nessas duas questões sociais, o filósofo Pondé diz que “gastos com indígenas soa ‘pagar a conta dos outros com meu dinheiro’. Por que eu teria que fazer isso? Se pergunta uma mente conservadora, índios deveriam ser como qualquer cidadão brasileiro, em direitos e deveres”. Com relação ao desarmamento, ele afirma que conservadores tendem a defender o direito das pessoas de se defenderem sem depender do Estado.

O professor José Maurício Domingues confirma a posição conservadora nessas duas questões dizendo que “é evidente que o agronegócio quer tomar as terras indígenas e a bancada da bala quer liberar as armas. Ou seja, tudo que cheira a direitos e avanços civilizatórios, ampliados nas últimas décadas, está na mira da ofensiva dos conservadores”, diz o professor do Iesp-Uerj e pesquisador associado do CEE da Fiocruz.

Professor do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da PUC Minas, Wellington Teodoro da Silva diz que a Constituição preconiza que o poder emana do povo. “O que temos visto é que o poder efetivo da nação emana do capital”, diz.

Onda conservadora nas livrarias

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"Essa voga de autoajuda foi um primeiro passo para a formação desse gosto pela literatura de consolação. Daí para o desconsolo conceitual ou para o apequenamento da inteligência foi um passo"

Muniz Sodré

Dezenas de livros com tendência conservadora invadiram as estantes das livrarias. Entre eles está a obra O Mínimo que Você Precisa Saber para não ser um Idiota (Record), do jornalista, filósofo e professor Olavo de Carvalho, que vendeu mais de 150 mil exemplares. No artigo Viva Paulo Freire, que integra o livro, Carvalho faz uma indagação instigadora: “Vocês conhecem alguém que tenha sido alfabetizado pelo método Paulo Freire?”. “Isso mostra um desconhecimento total de quem foi Paulo Freire. Poucos sabem que a obra dele está entre os cem maiores livros já lidos em Harvard, a universidade mais famosa do mundo”, diz o professor Robson Sávio.

Outros livros da editora Record, que se especializou em lançar livros do gênero conservador, são a Esquerda Caviar, de Rodrigo Constantino; Por trás da Máscara — do Passe livre aos Black Blocs, de Flávio Morgenstern; Não é a Mamãe, do jornalista Guilherme Fiúza; e A Década Perdida, de Marco Antônio Villa.

Editor da Record, Carlos Andrezza diz que havia uma imensa demanda reprimida por causa de cerca de 50 anos em que a produção editorial brasileira excluiu o pensamento liberal e conservador de suas prensas. Ele reivindica o pioneirismo na percepção desse nicho e diz que a Record investiu para se tornar referência nesse mercado.

O professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e escritor Muniz Sodré Cabral diz achar normal que um público leitor temeroso compre livros conservadores. “Isso não é de agora, essa voga de autoajuda foi um primeiro passo para a formação desse gosto pela literatura de consolação. Daí para o desconsolo conceitual ou para o apequenamento da inteligência foi um passo. Isto não quer dizer que todo best-seller seja ‘best…ialógico’, mas acontece”.

Teologia da Prosperidade

A onda conservadora também tem sido notada nas religiões por meio da expansão da Teologia da Prosperidade. De acordo com a Wikipédia, trata-se de uma doutrina religiosa cristã que defende que a benção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel.

No Brasil, esse discurso tem sido adotado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, pelo pastor Silas Malafaia, pelos deputados Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano, e pelo ex-deputado Eduardo Cunha.

Secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Steneir critica os católicos que também a ela se rendem. “Há quem concentre sua atividade religiosa na busca individual da prosperidade e faça da oração um instrumento único para isso”, disse em entrevista ao site da CNBB.

Qual seria a sociedade ideal?

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A sociedade ideal é democrática e participativa, construtora de justiça e solidariedade, aberta ao diálogo, respeitadora das diferenças e diversidades"

Professor Paulo Agostinho

A sociedade utópica e ideal para a maior parte dos analistas entrevistados nesta reportagem é aquela “em que determinados valores são compartilhados: justiça social, igual dignidade cidadã, bem querer, respeito mútuo, honestidade, cuidado e sensibilidade para com o outro, sobretudo criança, idoso ou doente, acolhida, diálogo democrático, entre outros”, diz o professor Edward Guimarães. “Democrática e participativa, construtora de justiça e solidariedade, aberta ao diálogo, respeitadora das diferenças e diversidades, assim como, na minha visão, foi o projeto de Deus para nós, amando-nos e acolhendo-nos como somos.”, completa o professor Paulo Agostinho.

Uma liberdade igualitária em que todos sejam igualmente livres e livremente iguais, inclusive respeitando as diferenças, é defendida pelo professor José Maurício Domingues. “Com isso em mente, trata-se de buscar construir as instituições capazes de traduzir esses valores em práticas sociais compartilhadas. Além disso, nossa relação de dominação e destrutiva com a natureza tem que ser revista, em parte do ângulo da ideia de desenvolvimento sustentável, mas a rigor, no longo prazo, indo bem além disso.”

O filósofo Luiz Felipe Pondé diz que não espera muito da sociedade. “Apenas que todos sejam iguais perante a lei, que a lei não seja muito corrupta e que o Estado me deixe em paz”, afirma.

 

A ONDA DE CONSERVADORISMO NO MUNDO

  1. ESTADOS UNIDOS

    A inesperada eleição de Donald Trump sinaliza para uma guinada conservadora, com um discurso nacionalista. Entre as medidas tomadas estão o desmonte das principais políticas dos oito anos de Barack Obama, com mudanças nas relações trabalhistas, segurança, em questões  ambientais, na imigração, na desregulamentação do sistema financeiro e nas ações contra grupos minoritários, entre outras.

     

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    HUNGRIA

    O primeiro-ministro soberano Viktor Orban, presidente do partido de centro-direita Fidesz  (União Cívica Húngara), no poder desde 2010, acenou para ações consideradas xenófobas contra a imigração europeia.

     

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    ALEMANHA

    O partido Alternativa para Alemanha (AfD), fundado em fevereiro de 2013, ganhou força nas eleições regionais realizadas em setembro de 2016 em Berlim e deve se tornar um forte opositor à chanceler da União Democrata Cristã (CDU), Angela Merkel, que em 2017 vai tentar o seu quarto mandato consecutivo nas eleições legislativas. O AfD, considerado de direita populista, se opõe radicalmente à política migratória, lançada pelo governo.

     

    POLÔNIA

    O partido de oposição ultraconservadora Lei e Justiça (PiS) ganhou as eleições em outubro de  2016. O líder do partido vencedor, Jaroslaw Kaczynski, se opõe à imigração do Oriente Médio, argumentando que eles poderiam levar doenças e parasitas à Polônia. O partido ainda é contrário à adesão da Polônia à zona do euro..

     

    Ilustração-5---FRANÇA

    FRANÇA

    Na França, a candidata de extrema-direita Marine Le Pen, do partido Frente Liberal, entra forte na disputa presidencial que deve ocorrer entre abril e maio de 2017. O IPSOS (órgão que analisa cinco hipotéticos cenários eleitorais com candidatos deferentes) indica que a Frente Liberal pode mesmo chegar ao poder. O partido, fundado por seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 1972, se caracteriza por posições radicais, entre elas a volta da pena de morte, maior restrição à entrada de imigrantes na França, especialmente de países do Leste europeu e de fora da Europa, além de uma maior autonomia política e legislativa na França em relação às diretivas emanadas da União Europeia.

     

    REINO UNIDO

    Brexit é a abreviação de Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída). Designa a saída do Reino unido da União Europeia. 51,9% dos eleitores britânicos votaram na Brexit em plebiscito realizado em 23 de junho de 2016. Os que optaram pela saída tomaram essa decisão questionando a interdependência entre os 28 países do bloco. Eles consideram injusta a relação porque o Reino Unido pagaria mais dinheiro do que receberia em troca. Também disseram que há muita burocracia e imposição de normas pela União Europeia.

Texto
Edson Cruz
Ilustração
Quinho
Fotos
1Marcos Figueiredo
2Wagner Morais/CPFL Cultura
3Raphael Calixto
4Pâmella Ribeiro
5Cícero Rabello
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