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Soter completa 30 anos, contribuindo para o pensamento teológico e as ciências da religião no Brasil

Comemorando 30 anos, realizou-se na PUC Minas, em julho de 2015, o 28º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter). Na abertura do Congresso, o reitor Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães manifestou sua felicidade em acolher os participantes e parabenizou a entidade pelo marco de 30 anos e sua grande contribuição para o pensamento teológico e das ciências da religião no Brasil. Nesse ato inicial, o atual presidente, padre Jaldemir Vitório, agradeceu a acolhida e o apoio que a PUC Minas tem dado, não somente por sediar a associação e seus congressos, mas também pelo convênio que resultou no Termo de Cooperação Técnica com o Centro de Memória e Pesquisa Histórica (CMPH) da PUC Minas (2012), que realizou a organização e a digitalização dos arquivos de memória da Soter.

Um dos seus importantes fundadores, seu primeiro secretário, foi o professor padre Alberto Antoniazzi (†2005), ex-vice-reitor da PUC Minas, e que começou a articular a criação da associação em 1983; outra importante figura, o primeiro presidente, mineiro de Belo Horizonte, foi o conhecido teólogo padre João Batista Libanio (†2014). Na ata de fundação (1985) dessa entidade se percebe claramente suas intenções primeiras: “Deparamo-nos […] com novas tarefas, com a de produzir a teologia de modo interdisciplinar e coletivo, e a de responder às situações humanas fundamentais, que não receberam até agora a devida atenção […]”.

Tal preocupação nascia do contexto da época. Estávamos nos dias finais da ditadura civil-militar, com grande mobilização da sociedade pela redemocratização, as Diretas-Já e, especialmente, pelo processo constituinte. No contexto religioso católico havia certo conflito entre as posições do pontificado de João Paulo II e a Teologia da Libertação. De outro lado, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) seguia oferecendo grande apoio às pastorais sociais e promovendo ações em defesa dos direitos humanos. Daí a necessidade de se criar uma entidade de natureza civil, e não eclesiástica ou fechada numa confessionalidade, que congregasse teólogos(as) e cientistas da religião, que refletisse sobre questões significativas da experiência religiosa e seus desafios, produzindo impactos acadêmicos e na sociedade.

“Pode-se dizer que até 1994 a Soter viveu um momento mais teológico e que a partir daí ampliou sua abrangência, alçando paulatinamente as Ciências da Religião”

Paulo Agostinho N. Baptista
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Pode-se dizer que até 1994 a Soter viveu um momento mais teológico e que a partir daí ampliou sua abrangência, alçando paulatinamente as Ciências da Religião. Segundo o sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira (2015), isso foi “o resultado da inclusão de pesquisadores de outras áreas de conhecimento em seus congressos, prática que já vinha desde 1991 e se consolida a partir de 1995, quando é colocada em prática a proposta da diretoria de ‘abertura para projetos específicos de pesquisa que vão além dos cursos e assembleias’”. O reconhecimento público desse trabalho aparece em 2000, quando a Soter ganha o Prêmio Jabuti de Literatura Religiosa com o livro Mysterium Creationis: um olhar interdisciplinar sobre o Universo.

De uma entidade que começou reunindo 13 teólogos(as), hoje a Soter tem produzido congressos (28), com apoio de agências de fomento como CNPq, Capes e Fapemig, com a participação de mais de 500 pesquisadores, dezenas de grupos e fóruns de trabalho, representando quase todos os estados da federação e quase todos os 21 programas de pós-graduação em Teologia e em Ciências da Religião. Os últimos anais de seus congressos ultrapassam a casa de 2.800 páginas.

Em sua produção editorial, que já conta com 30 livros, a Soter revela sua preocupação com questões emergentes de nossa realidade. Alguns exemplos dos títulos mais recentes, a partir de 2007: Religião e Transformação Social no Brasil Hoje; Deus e Vida: desafios, alternativas e o futuro da América Latina e do Caribe; Sustentabilidade da Vida e Espiritualidade; Religião, Ciência e Tecnologia; Religião e Paz Mundial; Religião e Educação para a Cidadania; Mobilidade Religiosa: linguagens, juventude e política; Deus na Sociedade Plural: fé, símbolos, narrativas; e Espiritualidades e Dinâmicas Sociais: memória – prospectivas.

O tema debatido em 2015 não podia ser mais atual: Religião e Espaço Público: cenários contemporâneos. Apesar de todo o avanço que se faz no diálogo para promover encontro entre as diferenças, de toda natureza, infelizmente também crescem posições exclusivistas, excludentes e intolerantes. Não faltam casos diários nos noticiários sobre isso, como a situação de uma menina de 11 anos apedrejada, em 14 de junho deste ano, no Rio de Janeiro, quando saía de um culto do candomblé.

Por isso, é preciso continuar o trabalho de educação e promoção de eventos que ofereçam novos horizontes dialogais para a sociedade. Nesse sentido, o objetivo do congresso de 2015 foi refletir sobre “as relações entre religião e política, os fundamentalismos nas grandes tradições religiosas e suas influências socioculturais, a pluralidade de crenças nas sociedades modernas, o movimento dos novos crentes e das novas opções religiosas, o fenômeno dos ‘sem-religião’, bem como o desafio dos estados democráticos de direito que vivem o paradoxo de serem laicos e, ao mesmo tempo, garantirem a liberdade religiosa”. Para isso, três eixos buscaram articular as conferências e mesas-redondas: Religião e Secularização, Religião e Globalização e Religião e Educação.

Em agosto deste ano, a comissão organizadora já começou o trabalho de preparação do congresso de 2016 (12 a 15 de julho), que também se realizará na PUC Minas. A temática deverá girar em torno da questão da religiosidade na pós-modernidade e os fenômenos pentecostais. Marquem essas datas em suas agendas. Será um momento importante para a reflexão e o debate sobre a religião na atualidade.

Texto
Paulo Agostinho N. Baptista
Ilustração
Carlos Fonseca
Foto
Marcos Figueiredo
Doutor em Ciências da Religião, professor de Cultura Religiosa e do Mestrado em Ciências da Religião e diretor da Editora PUC Minas, o professor Paulo Agostinho discorre em artigo sobre os 30 anos da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter). O professor ressalta o crescimento da entidade, que antes reunia apenas 13 teólogos e hoje conta com mais de 500 pesquisadores. Segundo ele, são “dezenas de grupos e fóruns de trabalho, representando quase todos os estados da federação e quase todos os 21 Programas de Pós-graduação em Teologia e Ciências da Religião”.
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