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Saúde Movimentos resgatados

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A aluna Isabela Lisbôa, Bruno Lohan e Daniel Lopes, diretor da 3DLopes

Após receber prótese 3D, paciente que perdeu antebraço em um acidente é reabilitado por alunos de Fisioterapia

Encher um copo com água, abrir uma garrafa e arrumar a cama podem parecer tarefas simples do dia a dia, mas para Bruno Lohan Guedes Chaves Martins, 20 anos, só foram possíveis de ser realizadas com independência após receber uma prótese 3D, pouco mais de um ano depois do acidente que sofreu com choque elétrico e ocasionou a perda de seu antebraço. Ele foi selecionado por alunos do Curso de Fisioterapia, do Campus Coração Eucarístico, para receber o produto, resultado do estudo experimental realizado no trabalho de conclusão de curso dos estudantes Aline Patrícia do Carmo Fernandes, Gabriel Mendes de Oliveira, Isabela Ferreira Lisbôa e Jonathan Barbosa dos Santos Pires, orientados pelo professor Sérgio Teixeira Noronha. Finalizado em junho de 2017, o trabalho consistiu na customização de uma prótese 3D de membro superior com enfoque na reabilitação funcional de um indivíduo amputado, no caso o Bruno.

O projeto tem como um dos parceiros o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), por meio do Laboratório Aberto. “É um espaço onde eles fomentam e estimulam a pesquisa, inovação, tecnologia e sustentabilidade. Lá tivemos contato com coordenadores, engenheiros, aprendemos várias coisas que auxiliaram nosso trabalho e conhecemos empresas parceiras que prestam serviços para o Senai para a realização de projetos, como a startup 3DLopes, que produziu a prótese”, explica Isabela. O grupo contou ainda com subsídio de 80% do valor do produto do programa Sebraetec, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Os outros 20% do valor da prótese foram custeados pelos alunos e coordenador do grupo e pela 3DLopes. Segundo o diretor executivo da startup, Daniel Lopes, este é o primeiro processo de reabilitação, envolvendo fisioterapeutas, com prótese impressa em 3D em Minas Gerais.

Adaptação foi rápida

Por meio da divulgação do projeto nas redes sociais, os alunos receberam mais de 50 pessoas interessadas em obtê-la e dez delas, de diversas idades e diferentes tipos de amputações, foram selecionadas para entrevista. “A renda foi um dos critérios de seleção, pois o grupo queria escolher alguém que não teria condições de arcar com os custos. “Outra questão é que o Bruno é jovem, fisicamente ativo e demonstrou ser psicologicamente tranquilo, diferentemente de outros entrevistados. Ele tinha alguns meses de amputação e estava se recuperando muito bem, já havia tirado a carteira de motorista para veículos adaptados, então identificamos que ele era um menino muito ativo, que queria mesmo a prótese, que a utilizaria de forma funcional e não teria necessidade de readaptá-la com o passar dos anos, diferente de uma criança em fase de crescimento”, explica Isabela.

Após a entrega da prótese, foi realizado com Bruno um trabalho de treinamento funcional, dividido em quatro etapas. Na primeira, foi produzida uma pré-prótese e o aluno pôde entender como funcionava, quais os movimentos ela realizava e de qual forma. Em seguida, foi ensinado a ele como colocá-la, retirá-la e acioná-la com a flexão do cotovelo e foram identificados e transmitidas aos engenheiros da 3DLopes informações sobre as adaptações e ajustes necessários. Na terceira e quarta etapas, mais funcionais, ele aprendeu a realizar atividades práticas do dia a dia, como pegar um copo, varrer casa, lavar louça e fazer comida, já com a prótese definitiva, conta Isabela. “A resposta dele para as nossas orientações foi muito rápida. Todo esse processo, desde a primeira versão do produto até a entrega, durou cerca de quatro meses, sendo que os treinamentos não passaram de 20 horas de duração total”, afirma Isabela. A reabilitação foi realizada na Clínica de Fisioterapia da Universidade e a clínica particular do professor Sérgio Noronha atuou como parceira no processo de avalição do Bruno.

Prótese apresenta várias vantagens

De fácil manuseio, a prótese é acionada com a abertura e o fechamento dos dedos e o acionamento da mão acontece por meio do cotovelo: “Como ele tem parte preservada, quando fecha o cotovelo os dedos se fecham e ele consegue segurar alguma coisa. Da mesma forma, quando ele abre o cotovelo liberam os dedos e o objeto que estiver em sua mão se solta”, explica o diretor da 3DLopes.

Além de ser impressa em aproximadamente 48 horas, essa prótese tem outras vantagens, como maior funcionalidade, se comparada com outras do mercado. “Queríamos fazer para o Bruno uma prótese leve e que resistisse por muito tempo. Então utilizamos o poliácido lático (PLA), um material originário do milho, mais resistente que o plástico comum. Além disso, a prótese dele é mecânica, ou seja, não tem motores, nem acionadores eletrônicos, fazendo com que ela não estrague se bater em algum lugar ou molhar, servindo muito bem para as atividades diárias dele. É também muito mais leve, 600g, sendo que uma eletrônica pesa no mínimo 1kg, e isso faz muita diferença, pois um dos grandes problemas que as pessoas amputadas enfrentam hoje é o peso das próteses”, garante Daniel. O valor desse produto, R$ 10 mil, também é um diferencial. “Antes de conhecer esse projeto dos alunos já tinha olhado o preço em alguns lugares. Vi umas elétricas e biônicas, mas que custam mais de R$ 100 mil”, relata Bruno.

O projeto fez tanto sucesso que os alunos foram convidados para ser parceiros da 3DLopes na área da saúde, na reabilitação dos clientes. “Foi uma coisa inovadora, que deu certo, e agora somos integrantes da equipe na área da Fisioterapia. Já estamos realizando algumas avaliações e tendo novas demandas. O primeiro contato da pessoa que quer a prótese é conosco para vermos se é possível fazê-la, para avaliarmos o nível da amputação e para escolhermos o modelo adequado. Dentro da Fisioterapia vemos a importância de realizar atendimento às pessoas amputadas, pois elas muitas vezes não são assistidas como deveriam. Vimos com o Bruno como a prótese aumenta a funcionalidade da pessoa, a autoestima e os fatores psicológico e social, e isso é gratificante”, descreve Isabela.

Texto
Tereza Xavier
Foto
Raphael Calixto
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