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Fitoterapia Óleos essenciais como alternativa terapêutica

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A preocupação com o uso indiscriminado de medicamentos motivou a ex-aluna de Ciências Biológicas Camila Nayara de Mello e Silvana Safar, estudante do Curso de Medicina, a desenvolverem o estudo

Pesquisa aponta a ação antimicrobiana e antifúngica de substâncias naturais

Você certamente já ouviu falar sobre receitas de remédios naturais para curar ou aliviar algum mal-estar. Tratar doenças ou preveni-las com o uso de plantas, conhecido como fitoterapia, é uma vertente muito antiga. Buscando apresentar mais uma alternativa terapêutica à população, Camila Nayara de Mello, que concluiu, em 2017, o Curso de Ciências Biológicas no Campus Betim, e Silvana Vilas Boas Safar, discente do Curso de Medicina da Universidade, desenvolveram o estudo Avaliação da Atividade Antibacteriana e Antifúngica de Óleos Essenciais. Os resultados apontam grande potencial do uso destas substâncias como inibidores do crescimento microbiano.

Os óleos essenciais são substâncias vegetais voláteis e extremamente concentradas. “Eles são extraídos a partir de partes das plantas, como flor, frutos, raízes, por diferentes métodos de extração. Ao serem utilizados por meio de inalação ou ingestão, são absorvidos pela corrente sanguínea e metabolizados pelo corpo”, explica a coordenadora do Curso de Biomedicina e orientadora do trabalho, professora Juliana Campos de Pinho Resende.

No trabalho foi analisada a ação antimicrobiana de 24 óleos essenciais, sobre oito tipos de bactérias e quatro tipos de leveduras. Dos 24 tipos analisados, 19 óleos foram capazes de inibir o crescimento de pelo menos uma das bactérias testadas. Além disso, oito deles inibiram o crescimento de todas as bactérias estudadas – um desses óleos é oriundo de um tempero muito comum: o orégano. Em relação à atividade antifúngica, todos os óleos testados inibiram o crescimento de pelo menos uma levedura.

Os óleos essenciais do ajowan (conhecido como tomilho indiano), alfavaca, cravo-botões, cravo-folha, eucalipto, hortelã-pimenta e do orégano inibiram o crescimento de todas as bactérias testadas. Não foi observada a inibição de bactérias com o uso dos óleos essenciais da pimenta malagueta, tangerina, tea tree (marca pure body naturals), açafrão indiano e da salsaparrilha.

Em relação à ação antifúngica, os óleos essenciais da alfavaca e da canela inibiram o crescimento de todas as leveduras testadas. “Em relação à ação antifúngica, de uma forma geral houve inibição do crescimento de praticamente todas as leveduras testadas”, afirmam as alunas.

Uso indiscriminado de medicamentos

A pesquisa teve início em 2016 e fez parte do Programa de Bolsas de Iniciação Científica (Probic) da PUC Minas, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). As alunas manifestaram interesse em desenvolver estudos acerca desta temática, após participarem como monitoras da disciplina de Microbiologia Médica e Doenças Infecciosas, do Curso de Medicina, no mesmo período. A preocupação com o uso indiscriminado ou excessivo de medicamentos, especialmente os antimicrobianos e antifúngicos, por parte da população mundial, também despertou interesse pelo desenvolvimento do estudo. “Embora as alternativas terapêuticas sejam ainda bem aceitas nos dias de hoje, a opção de antimicrobianos fármacos, os chamados remédios, são os mais utilizados pela população para combater doenças bacterianas e fúngicas”, aponta Camila de Mello.

Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou a campanha Global Patient Safety Challenge on Medication Safety (Desafio Global de Proteção do Paciente em Relação à Segurança da Medicação, em tradução livre), que aborda o uso indiscriminado de medicamentos. A OMS estima que sejam gastos US$ 42 bilhões por ano para custear os erros causados pela medicação inadequada. “A investigação e o desenvolvimento de novos agentes com propriedades terapêuticas são imprescindíveis. Os óleos essenciais, por serem substâncias naturais e biodegradáveis, geralmente apresentam baixa toxicidade, podendo atuar sobre várias moléculas-alvo ao mesmo tempo”, explica Silvana Safar.

Metodologia

A metodologia utilizada na pesquisa foi o Teste de Sensibilidade aos antimicrobianos por disco-difusão, um método físico que testa a suscetibilidade dos microrganismos diante de um determinado agente. Neste método, os discos de papel-filtro são impregnados com antimicrobianos em concentrações fixas de 0,002ml (no caso do trabalho, dos óleos essenciais escolhidos) e inseridos sobre uma placa contendo meio de cultura e um microrganismo já semeado. Após 24 horas, a leitura pode ser realizada, e é possível identificar a zona de inibição de crescimento do microrganismo desafiado com a concentração da substância.

Os microrganismos selecionados neste estudo foram as bactérias Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis, Salmonella typhimurium, Enterobacter sp., Shigella sp., Klebsiella oxytoca, Enterococcus faecalis e Escherichia coli, que podem causar infecções respiratórias, cardíacas, intestinais, entre outras. As leveduras testadas foram Candida albicans, Candida glabata, Candida tropicalis e Candida parapsilosis, que podem causar candidíase.

 

Onde encontrar?

Os óleos essenciais podem ser encontrados em farmácias de manipulação, fitoterápicas e lojas especializadas em aromaterapia. Podem ter uso tópico ou por ingestão, mediante indicação do produto.

Texto
Lorena Scafutto
Foto
Raphael Calixto
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