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Artigo
Os benefícios da telessaúde

O acesso remoto a profissionais de saúde vem sendo a resposta para reduzir os efeitos adversos da má distribuição de recursos na área

“O desequilíbrio de recursos humanos resulta em danos à saúde da população, uma vez que dificulta oacesso a determinadasespecialidades, exames e tratamentos”

O Brasil, assim como outros países de grande extensão territorial, enfrenta o desafio de distribuir os recursos, equipamentos, insumos e profissionais de saúde de forma a atender às necessidades epidemiológicas e sociodemográficas da população. A relação médico por habitante pode ser um indicador para avaliação da disponibilidade de recursos humanos. Em determinados centros urbanos brasileiros ocorre uma concentração de profissionais e estruturas de saúde, enquanto as regiões remotas enfrentam a escassez destes recursos. De acordo com dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais, em 2017, a Região Metropolitana de Belo Horizonte, por exemplo, contava com 3,57 médicos para cada mil habitantes, enquanto a região do Jequitinhonha dispõe de apenas 0,59 médico para cada mil pessoas. O primeiro número é próximo ao encontrado em países com alto índice de desenvolvimento humano, enquanto o segundo encontra pares entre as regiões mais carentes do planeta.

O desequilíbrio na distribuição dos recursos é agravado quando analisamos a proporção entre profissionais de saúde generalistas e especialistas, estes últimos também concentrados nos grandes centros urbanos. A maior concentração de especialistas está nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, presentes em menor densidade nas três demais regiões.

O desequilíbrio de recursos humanos resulta em danos à saúde da população, uma vez que dificulta o acesso a determinadas especialidades, exames e tratamentos; descontinuidade no cuidado da atenção à saúde; além da interrupção de planos de cuidado, perda de oportunidades de detecção e tratamento de doenças nos estágios iniciais. Do ponto de vista gerencial, são altos os custos com deslocamentos de pacientes e com o tratamento de doenças em estágio avançado, que poderiam ter sido diagnosticadas e tratadas precocemente.

Neste cenário, o acesso remoto a profissionais de saúde vem sendo a resposta que vários países encontraram para minorar os efeitos adversos desta distribuição assimétrica de recursos. A telessaúde é a utilização de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) para prover recursos a distância, seja com foco assistencial, seja com foco educacional ou gerencial. Os recursos tecnológicos disponíveis atualmente permitem aplicações nas mais diversas áreas da saúde. É possível a interação remota entre dois profissionais de saúde, entre profissionais de saúde e pacientes e o acesso remoto a resultados de exames por profissionais de saúde. Um exemplo desta interação acontece quando um generalista atuante numa região distante dos grandes centros se depara com um caso clínico no qual julga que necessita do apoio técnico de um especialista. Os dois podem conversar por videoconferência e discutir o caso clínico, ou então o generalista pode enviar um resumo do caso para que o especialista dê a sua opinião sobre o que lhe foi apresentado. Esta interação pode ser on-line ou off-line. Na atenção à saúde convencional este procedimento é comum e recebe o nome de interconsulta. Ao se utilizar as TIC, este procedimento passa a ser denominado teleinterconsulta. Em quadros como o Acidente Vascular Cerebral Agudo em um morador de uma pequena cidade, a avaliação remota feita por especialista e a sua orientação ao profissional de saúde local pode ser a diferença entre a vida e a morte do paciente.

Outra possibilidade é a teleconsulta, em que o paciente pode interagir a distância diretamente com o profissional de saúde, reduzindo custos com transporte e tornando acessível o atendimento a pacientes com dificuldades de locomoção, como nos casos das internações domiciliares.

A modalidade mais amplamente difundida no Brasil atualmente é o telediagnóstico. Nela, um técnico treinado, realiza um exame e o envia para que um especialista faça uma avaliação e elabore um laudo. Neste cenário o generalista, atuante em uma área remota, atende o paciente e suspeita que ele tenha uma afecção cardíaca, por exemplo, e realiza um eletrocardiograma (ECG). Os sinais colhidos durante o exame são enviados a distância a um cardiologista que analisa o traçado do ECG e elabora um laudo que será utilizado pelo generalista na sua tomada de decisão clínica. Milhares de pacientes que antes teriam que esperar meses ou viajar quilômetros para serem avaliados por especialistas têm sido beneficiados pela telessaúde, tendo a oportunidade de receber diagnóstico e tratamentos assertivos em tempo hábil.

Ao mesmo tempo em que a ampliação da utilização da telessaúde é uma tendência mundial e brasileira, ela representa desafios a ser superados. A infraestrutura de TIC brasileira precisa garantir a transmissão de dados, sinais e imagens de forma a assegurar a interação efetiva entre profissionais e pacientes, assim como a interpretação adequada dos exames realizados. Outro aspecto primordial é a evolução, tanto técnica quanto ético-legal, do grau de proteção dos dados dos pacientes, garantindo o sigilo e a confidencialidade das informações transmitidas. A regulamentação dos atos profissionais das diversas ocupações da saúde realizados a distância, é outro fator importante para que tecnologia se dissemine. Há também que se investir na capacitação dos profissionais de saúde, desde a formação durante a graduação universitária, passando pelos já graduados que estão em treinamento em serviço, até a reciclagem dos que já atuam no mercado para que todos aprendam e treinem as especificidades do atendimento de pacientes a distância.

O cenário é promissor. A telessaúde, quando bem indicada e bem executada, de forma ética e segura, poderá melhorar o acesso da população a recursos de saúde atualmente inexistentes ou disponíveis só após muita penúria e dispêndio.

Texto
Geraldo José Coelho Ribeiro
Professor do Curso de Medicina nos campi Betim e Contagem, Geraldo José Coelho Ribeiro analisa o desequilíbrio no território brasileiro quanto à distribuição de recursos humanos de saúde, o que, de acordo com ele, gera consequências danosas à população. O docente lembra que o acesso remoto a profissionais de saúde vem sendo a resposta que vários países encontraram para minorar os efeitos adversos desta distribuição assimétrica de recursos. Ao mesmo tempo em que a ampliação da utilização da telessaúde é uma tendência mundial e brasileira, ela representa desafios a ser superados, diz. Geraldo Ribeiro é mestre em Ciências da Saúde, especialista em Medicina Preventiva e doutorando em Ciências da Saúde, além de profissional certificado em Tecnologia da Informação e Comunicação em Saúde.
Foto
Raphael Calixto
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