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Artigo
Os cem anos do fim do Império Otomano

A relevância desse grande império multiétnico e o seu legado, entre eles, a tolerância religiosa

“O fim da Primeira Guerra Mundial viu o Império Otomano se transformar em uma República em poucos anos. Restou de sua dimensão territorial apenas um quarto do total das terras, quando comparado com seu apogeu.”

O ano de 1919 foi marcante para a história do mundo contemporâneo, pois representou a tentativa de criação de uma nova ordem mundial pelas potências que venceram a Primeira Grande Guerra. Dentre os vários desdobramentos do fim desse conflito, um dos mais evidentes foi o subsequente desaparecimento de alguns Impérios centenários.

A Conferência de Paz de Paris (1919 – 1920) foi uma iniciativa que buscava lidar com o espólio das forças derrotadas, e seus resultados tiveram tremendo impacto para a ordem mundial. Os principais vencedores daquele conflito, Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália, buscaram reorganizar os territórios dos países derrotados, extinguindo antigos impérios e dividindo terras e colônias das potências vencidas, de maneira a criarem um novo mundo, muito mais próximo de seus projetos internacionais. O Tratado de Versalhes (para a Alemanha), o Tratado de Saint Germain-en-Layede (que extingue o Império Austro-Húngaro) e o Tratado de Sèvres (com o Império Otomano), são alguns resultados da Conferência de Paz de Paris, que levarão a graves consequências nas décadas seguintes, como a própria Segunda Guerra Mundial.

Um dos resultados da Conferência de Paz de Paris foi o fim de dois grandes Impérios, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano. O fim do Império Otomano ocorreu oficialmente em 1922, com a retirada do poder do Califa Mehmed VI, logo após a implementação do Tratado de Lausanne, que finalizou as controvérsias do pós-guerra criadas pelo tratado de Sèvres.

Nesse sentido, passados cem anos do processo que precipitou o fim permanente do Império Otomano e de seu califado, faz-se necessário compreender a força e relevância que esse império teve para o mundo. O Império Otomano teve seu início em uma pequena porção de terra no interior da Anatólia Central (atual Turquia), no início do século XI, e se fortaleceu aproveitando-se do processo de desintegração do Império Bizantino. O nome otomano está ligado a um de seus grandes líderes, Uthman (Osman em português), que conseguiu transformar um conjunto de tribos nômades da Anatólia em um grande Império.

Em 1453, os otomanos conseguem tomar a capital do Império Romano do Oriente, Constantinopla, e a rebatiza com o nome de Istambul. Esse fato foi tão importante que é o marco que separa a Idade Média da Idade Moderna na história do mundo. De 1520 a 1566 o Império Otomano atinge seu apogeu, sob o comando de Salomão, o Magnífico, alcançando sua maior dimensão territorial, conquistando vários territórios do Leste Europeu, como a Romênia, Hungria e Áustria, tornando-se uma superpotência militar, controlando todo o Mar Mediterrâneo, Mar Vermelho e Mar Negro com sua marinha de guerra. Nesse período, o Império controlava todo o Oriente Médio, Norte da África, Cáucaso e boa parte do Leste Europeu e Bálcãs, totalizando uma área de mais de cinco milhões de km2.

A Sublime Porta, como era chamado o Império Otomano, também foi conhecida pela diversidade étnica e religiosa de seus domínios, mesmo sendo de maioria islâmica. Árabes, europeus, curdos, armênios, judeus, cristãos, drusos, dentre outros, são alguns exemplos da diversidade que permeava o Império. Para lidar com a grande extensão territorial e a complexidade das comunidades que o compunham, o Império desenvolveu um regime especial de relacionamento com as minorias religiosas, principalmente judeus e cristãos, dando a eles um status e autonomia jurídica relativa com relação às suas especificidades de culto e costumes. Esse regime ficou conhecido como Millet. Isso é um indicador do grau de tolerância que o Império Otomano tinha com certas minorias religiosas.

Por outro lado, também é conhecido que todo império mantém uma relação de dominação com relação às populações dominadas, e isso não seria diferente com os otomanos, que, em vários momentos, mantiveram com mãos de ferro movimentos separatistas que ocorriam dentro de seus limites.

Este foi um império que marcou as artes do mundo moderno, pois dialogava com várias tradições artísticas, influenciado pelo legado islâmico-asiático, e, ao mesmo tempo, com a influência greco-romana, bizantina e europeia. Istambul, a capital do Império, mantinha traços de seu legado bizantino/romano e islâmico, o que pode ser visto na arquitetura de suas mesquitas, praças, nos banhos turcos, nos antigos templos romanos transformados em igrejas cristãs, etc.

A partir do século XVII, inicia-se o processo de decadência do Império, em virtude dos altos gastos da corte e da pressão cada vez maior das potências europeias pelos domínios do Império Otomano. Mesmo com as tentativas de reformas implementadas no século XIX (reformas Tanzimat) para lidar com os desafios do “Grande Jogo” europeu, a interferência cada vez maior de Reino Unido, França e Rússia nos assuntos do Império Otomano aumentaram ainda mais seu desgaste.

No início do século XX, o Império incorre em seu maior erro, que foi se aliar ao Império Alemão contra França, Reino Unido e Rússia na Primeira Guerra Mundial. Esse movimento equivocado transformou um antigo aliado do Império (Reino Unido) em um adversário que levaria à sua derrota em 1918. As causas para o fim do Império Otomano podem estar ligadas não somente aos seus problemas internos, mas principalmente em razão das disputas das grandes potências europeias pelo controle do continente. Naquele momento, o Império que já estava “doente”, em função dos movimentos de independência que foram fragmentando sua unidade territorial, e pela crise econômica, se tornou presa fácil para as forças que buscavam aproveitar-se de seu vasto e rico espólio territorial.

O fim da Primeira Guerra Mundial viu o Império Otomano se transformar em uma República em poucos anos. Restou de sua dimensão territorial apenas um quarto do total das terras, quando comparado com seu apogeu. O islamismo deixou de ser a religião oficial do Estado Turco, e a ocidentalização de suas instituições e cultura foram tremendas. Porém, o legado deste grande Império ainda pode ser visto na arquitetura de vários países pelo mundo e pela gastronomia otomana, que influenciaram árabes e europeus, e pela herança de tolerância religiosa que este império multiétnico legou para a história da humanidade, tema tão importante e difícil na história do mundo contemporâneo.

Texto
Prof. Danny Zahreddine
O diretor do Instituto de Ciências Sociais discorre, em artigo, sobre os cem anos do fim do Império Otomano. O fim do Império Otomano ocorreu oficialmente em 1922, com a retirada do poder do Califa Mehmed VI, logo após a implementação do Tratado de Lausanne, que finalizou as controvérsias do pós-guerra criadas pelo tratado de Sèvres. No início do século XX, destaca o professor, o Império incorre em seu maior erro, ao se aliar ao Império Alemão contra França, Reino Unido e Rússia na Primeira Guerra Mundial. Esse movimento equivocado transformou um antigo aliado do Império (Reino Unido) em um adversário que levaria à sua derrota em 1918. “As causas para o fim do Império Otomano podem estar ligadas não somente aos seus problemas internos, mas principalmente em razão das disputas das grandes potências europeias pelo controle do continente”.
Ilustração
Quinho
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