revista puc minas

Odontologia Prevenção à osteoporose

IMG_9963

Pesquisa aponta que radiografias dentárias podem detectar indícios da doença

“A nossa proposta é detectar antes da doença instalada e, a partir dos indícios, encaminhar esses pacientes mais cedo para o tratamento médico”

Claudia Scigliano Valerio, autora da pesquisa

A radiografia dentária, recurso indispensável para o tratamento odontológico, revela-se importante também para auxiliar na detecção de indícios de osteoporose. É o que aponta pesquisa realizada pela doutoranda Claudia Scigliano Valerio, do Programa de Pós-graduação em Odontologia da PUC Minas, cujo tema de dissertação de mestrado, defendida na Universidade, resultou em dois artigos, um publicado em junho deste ano na revista do Conselho Regional de Odontologia de Minas Gerais e outro na revista de maior destaque internacional da área, a Dentomaxillofacial Radiology. O estudo propõe a utilização da radiografia panorâmica, uma das mais solicitadas na odontologia, como meio auxiliar de diagnóstico da osteoporose, o que pode influenciar a abordagem terapêutica do dentista, além de alertar o paciente sobre a possibilidade de ele ter uma doença que requer cuidados específicos.

A osteoporose caracteriza-se pela diminuição substancial da massa óssea, o que provoca ossos porosos, finos e mais sujeitos a fraturas. De acordo com o Ministério da Saúde, a doença é uma das principais causas de morbidade e mortalidade em idosos, e a estimativa é de que cerca de 50% das mulheres e 20% dos homens com idade igual ou superior a 50 anos sofram alguma fratura osteoporótica ao longo da vida. Os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença são o estilo de vida, idade, gênero, índice de massa corporal e histórico familiar.

“O especialista em radiologia consegue detectar cistos, tumores, perda de densidade óssea mineral, entre outros problemas dentários. Com o laudo em mãos, o dentista está apto a analisar as imagens com maior precisão”

Professor Flávio Ricardo Manzi, orientador da pesquisa

De acordo com o orientador da dissertação, professor Flávio Ricardo Manzi, em muitos casos, por ser uma doença silenciosa, quando se tem a suspeita é porque a osteoporose já está em estágio avançado ou a pessoa teve alguma fratura ou consequência mais séria da doença. Dessa forma, a autora da dissertação ressalta que a intenção da pesquisa é chamar a atenção para a prevenção. “A nossa proposta é detectar antes da doença instalada e, a partir dos indícios, encaminhar esses pacientes mais cedo para o tratamento médico. O paciente vai muito mais frequentemente e mais jovem fazer uma radiografia dentária do que procurar um médico para tratar uma osteoporose. O custo-benefício em longo prazo é muito maior”, diz Claudia.

A importância do estudo se torna ainda mais relevante diante dos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2010, o grupo etário com 60 anos ou mais alcançou mais de 20 milhões de pessoas, o que representou 11% da população. Estudo sobre a projeção da população brasileira, feito pelo instituto, apontou que essa faixa de idade passará para mais de 41 milhões em 2030 e mais de 73 milhões em 2060, o que evidencia um processo acelerado de envelhecimento da população, favorecendo o aumento de ocorrência de doenças crônico-degenerativas, como a osteoporose.

Baixo custo e baixa radiação

Para detectar a doença, o principal exame é a densitometria óssea, indicado para mulheres acima de 65 anos e homens acima de 70 anos, ou antes, para casos específicos. Claudia ressalta que esse exame possui valor elevado e alta radiação, e, por essa razão, defende que os dentistas que já têm em suas mãos a radiografia panorâmica, que possui baixo custo e menor radiação, utilizem-na para detectar indícios da doença e, caso a encontrem, encaminhem os pacientes para atendimento médico.

A radiografia mais solicitada pelos dentistas é a periapical, que abrange dente por dente, mas só alcança até a raiz, como explica Manzi. Já a panorâmica compreende toda a região da cabeça, incluindo a base da mandíbula, que, de acordo com ele, é uma área na qual pode-se visualizar o início da perda de cálcio pelo osso, fase da doença denominada osteopenia pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Se não tratada, ela pode evoluir para a osteoporose aproximadamente num prazo de dez anos, segundo o professor.

A geriatra Tatiana Mendes Casagrande afirma que, se diagnosticada precocemente, antes de complicações graves, como fratura no fêmur, por exemplo, a osteoporose é uma doença tratável com medicações e mudanças no estilo de vida. “A principal prevenção é a prática de exercícios físicos, dieta rica em cálcio e exposição solar, para a síntese de vitamina D. Em mulheres com mais de 50 anos de idade é recomendado o consumo de cerca de 1,2 mil mg de cálcio ao dia, preferencialmente através da dieta. Quando impossibilitadas de fazê-lo por meio de fontes nutricionais, fundamentalmente através do leite ou de derivados lácteos, é recomendável que recebam suplementos de cálcio. É importante também a interrupção do consumo de álcool e do cigarro”, recomenda.

Doença atinge mais as mulheres

A associação entre a osteoporose e a perda óssea na mandíbula e na maxila vem sendo estudada no meio acadêmico desde 1960, de acordo com Claudia, mas ela conta que ainda não é muito difundida entre os dentistas: “No Japão e outros países desenvolvidos, essa utilização da radiografia já vem sendo bastante utilizada. São países em que há grande preocupação com a prevenção de doenças”, conta.

Para verificar a efetividade dessa radiografia a fim de identificar indícios da osteoporose, a aluna selecionou 64 pacientes da Clínica de Odontologia da Universidade, no período pós-menopáusico, com idade entre 49 e 75 anos, que se submeteram a tratamento odontológico com solicitação da panorâmica. Segundo a geriatra Tatiana Casagrande, a mulher apresenta deficiência do hormônio estrogênio nesse período, considerado fator determinante da perda óssea.

Todas essas pacientes, que haviam realizado o exame de densitometria por indicação médica, na coluna lombar e no fêmur, principais regiões afetadas pela doença, foram divididas em três grupos: um com 23 mulheres que tinham densidade mineral óssea normal, um composto por 21 mulheres com osteopenia e outro com 20 mulheres com diagnóstico de osteoporose. O objetivo foi analisar as panorâmicas sem o conhecimento prévio do resultado da densitometria e verificar se os resultados podiam ser correlacionados. A análise da radiografia deu positiva para a doença em 82% das mulheres com diagnóstico de baixa densidade óssea, ou seja, osteopenia ou osteoporose, e negativa para 60% das mulheres com densidade mineral óssea normal.

Laudo radiográfico na odontologia

IMG_0673

“É um diferencial que nos permite ganhar a confiança dos pacientes. Sem dúvida é muito bom e valioso poder dar esse retorno a eles”

Leonardo de Oliveira Buzatti, dentista

Além de zelar pela saúde do paciente, a descoberta da doença é de extrema importância para o dentista. “Na cavidade bucal, a maior consequência da osteoporose é a perda de dentes, acarretando também limitações ósseas à instalação de implantes e, ocasionalmente, fratura mandibular. Essa radiografia deveria ser solicitada por todo dentista, quando recebesse um novo paciente, que é o protocolo sugerido pela American Dental Association (ADA), órgão americano que estabelece parâmetros de segurança e de qualidade internacionais para a Odontologia, seguidos pelo Brasil e outros países”, diz Claudia. “Na minha opinião, também deveria ser solicitada anualmente, para controle, pois podemos detectar várias lesões por esse exame. Acredito que ele não seja solicitado com a frequência necessária por uma questão cultural.”

O orientador lembra que a maioria dos dentistas não é treinada para ver perda de osso nas radiografias panorâmicas e, por essa razão, reforça a importância do laudo nos exames odontológicos, que passou a ser obrigatório no Brasil a partir de janeiro de 2013. “O especialista em radiologia consegue detectar cistos, tumores, perda de densidade óssea mineral, entre outros problemas dentários. Com o laudo em mãos, o dentista está apto a analisar as imagens com maior precisão”, pontua Manzi.

Para o dentista de Pará de Minas, na mesorregião metropolitana de Belo Horizonte, Leonardo de Oliveira Buzatti, o laudo é essencial. Aluno do professor Flávio Manzi, em um curso de especialização em radiologia na capital, ele conta que desde que tomou conhecimento da pesquisa orientada pelo professor passou a pedir a radiografia panorâmica em seu consultório quando o paciente apresenta características de perda óssea, e já detectou a osteoporose em alguns casos: “É um diferencial que nos permite ganhar a confiança dos pacientes. Sem dúvida é muito bom e valioso poder dar esse retorno a eles”.

Texto
Tereza Xavier
Fotos
Marcos Figueiredo
Compartilhe
Fale Conosco
+Mais