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Extensão Rede de solidariedade a Brumadinho

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O agricultor José de Souza, sobre o Rio Paraopeba contaminado com o rompimento da barragem, procurou o posto de atendimento para obter assistência jurídica

Arquidiocese de Belo Horizonte, PUC Minas e Defensoria Pública da União se unem para prestar atendimento à população; ações de extensão também estão em curso

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“Brumadinho é uma cidade pequena e a Igreja tem uma inserção muito grande. Logo, a parceria estabelecida proporciona maior confiabilidade, considerando que há um clima de desconfiança muito grande em relação às ações da Vale. ”

Sabrina Vieira, defensora pública

O agricultor José Sérgio Ferreira de Souza, 38 anos, trabalhava como pedreiro e decidiu arrendar por dois anos uma propriedade rural para produzir hortaliças. Quatro meses depois, prestes a fazer a primeira colheita, o cultivo teve que ser interrompido. “A lama levou a bomba de irrigação e a lagoa embora”, conta. O rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, ocorrido no final de janeiro em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, deixou centenas de mortos e desaparecidos e trouxe inúmeros prejuízos para ele e milhares de moradores e trabalhadores da região. Sem fonte de renda e com muitas contas para pagar, José Sérgio – pai de sete filhos, com o oitavo a caminho – procurou o posto de atendimento da Arquidiocese de Belo Horizonte, PUC Minas e Defensoria Pública da União (DPU) para obter assistência jurídica para o seu caso.

Assim como José Sérgio, mais de mil pessoas já passaram pelo posto de atendimento montado pelas instituições, no centro da cidade, depois da assinatura de um termo de cooperação técnica, no início de fevereiro. O rompimento da barragem é classificado pelas entidades como “um desastre humano, ecológico, social, cultural e econômico”. A assistência jurídica gratuita foi a primeira ação iniciada. Além disso, também está sendo feito, no mesmo local, pela Providens, entidade da Arquidiocese de Belo Horizonte, o cadastro para recebimento de donativos e o encaminhamento para atendimentos espiritual e psicológico, este em parceria com a Prefeitura, conforme conta o padre René Lopes, da Paróquia São Sebastião.

“Brumadinho é uma cidade pequena e a Igreja tem uma inserção muito grande. Logo, a parceria estabelecida proporciona maior confiabilidade, considerando que há um clima de desconfiança muito grande em relação às ações da Vale. A confiança faz as pessoas se sentirem mais estimuladas a procurar o local”, observa a defensora pública Sabrina Nunes Vieira. De acordo com ela, em um momento emergencial, os resultados são mais efetivos quando as instituições atuam em conjunto. “Pela experiência de Mariana, quando as instituições tentam atuar sozinhas, há ações que ficam prejudicadas, sempre falta algo em algum ponto.” As principais demandas jurídicas, conta, são para recebimento de auxílio financeiro imediato e aquisição de produtos que, em função da perda de renda, as pessoas não estão tendo condições de comprar, como itens de alimentação, medicamentos, água mineral, gás, entre outros.

Os atendimentos vêm ocorrendo em um imóvel comercial cedido gratuitamente à PUC Minas pela moradora de Brumadinho Eunice Antunes de Sousa Teodósio, a Dona Eunice, de 77 anos, mãe do professor Armindo dos Santos de Sousa Teodósio, do Curso de Administração do Campus Betim e do Programa de Pós-graduação em Administração. A Universidade fez a reforma do local e providenciou estações de trabalho, com mesa, cadeira, computador e impressora.

“A oportunidade de ceder o espaço comercial alegra nossos corações e nos reconforta. Em um momento de tantas pessoas chegando à nossa cidade, a presença de instituições sérias, competentes e orientadas para a comunidade, comprometidas com as mais vulneráveis de nossa cidade nos abençoa com a materialização da vivência do Evangelho no seio de nossa comunidade”, afirma Dona Eunice, professora aposentada da rede estadual e atualmente envolvida em atividades paroquiais.

Integrante do movimento Eu Luto, Brumadinho Vive, o professor Armindo Teodósio destaca o trabalho educativo que precisará ser desenvolvido na cidade, para que a tragédia não seja esquecida. “O movimento tem uma preocupação muito grande com a memória, a história que precisa ser sempre contada. Lembrar é sempre muito importante”, afirma. Ele destaca que o movimento vê a PUC Minas como grande parceira e chama a atenção para a vocação do município, que não se resume somente à mineração.

O posto de atendimento funciona na Praça Paulo Alves Moreira, 57 (praça da rodoviária), das 9h às 12h e das 13h às 17h.

Ações extensionistas

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“O Programa de Extensão PUC Minas em Brumadinho reafirma o papel essencial do dialogismo com as populações atingidas e que tiveram inúmeros direitos violados”

Professor Wanderley Chieppe, Pró-reitor de Extensão

Com o objetivo de contribuir para o enfrentamento de problemas sociais, econômicos, culturais e ambientais na bacia hidrográfica do Rio Paraopeba, decorrentes do rompimento da barragem em Brumadinho, foi criada uma comissão interdisciplinar, coordenada pela Pró-Reitoria de Extensão, por determinação da Reitoria da PUC Minas, para prestar apoio, orientação e assessoramento às vítimas e a toda a cidade. A comissão solicitou propostas de todas as áreas de conhecimento da Universidade e, com base nelas, elaborou um programa de extensão, que consiste na articulação de um conjunto de projetos, de diversas temáticas, que estão sendo desenvolvidos através de ações emergenciais, de curto e médio prazos e complementares junto à população, iniciadas no mês de abril, entre elas o atendimento gratuito pelo Núcleo de Apoio Contábil Fiscal Itinerante (NAF), vinculado ao Curso de Ciências Contábeis.

“O Programa de Extensão PUC Minas em Brumadinho está concebido a partir das diretrizes que balizam a extensão universitária e reafirma o papel essencial do dialogismo com as populações atingidas e que tiveram inúmeros direitos violados”, afirma o pró-reitor de Extensão, professor Wanderley Chieppe Felippe. “A proposta integrará ações estruturadas a partir de um diagnóstico, que tem por escopo o necessário mapeamento dos serviços e iniciativas já existentes no município, dos grupos comunitários, religiosos e lideranças locais, além do mapeamento dos serviços públicos governamentais de saúde, educação e assistência social”, completa.

São dezenas de projetos, envolvendo professores e alunos de todos os institutos, faculdades e unidades, nos seguintes eixos temáticos: jurídico-contábil; educativo/lúdico; gestão; psicossocial e sociocomunitário; saúde humana; saúde animal e socioambiental. Segundo o reitor e bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, professor Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, as ações serão desenvolvidas em conjunto com a comunidade e vão permitir aos alunos a possibilidade de atuar na área social, desenvolvendo o sentimento de solidariedade e de cidadania.

Considerando a localização estratégica da PUC Minas Betim, a 28 quilômetros de Brumadinho, parte das ações vinculadas ao programa terão como referência seus cursos de graduação. “Além da articulação com o ensino e a pesquisa, alia-se ainda a fundamental contribuição da Pastoral Universitária do Campus”, afirma o pró-reitor de Extensão.

Acolhimento à comunidade acadêmica

O impacto da tragédia em Brumadinho também é sentido de forma direta por membros da comunidade acadêmica, não só porque residem no município e cidades próximas, mas, sobretudo, pela relação familiar com as pessoas que foram mortas e que estão desaparecidas. Pela proximidade geográfica, o impacto maior foi no Campus Betim. Lá, 54 alunos foram diretamente afetados pelo sofrimento da perda de familiares e uma aluna do Curso de Administração faleceu na região do entorno da barragem enquanto fazia estágio. A aluna de Betim está entre os três estudantes da PUC Minas que tiveram seus corpos identificados até o momento. Um ainda permanece desaparecido.

Por conta dessa situação, a Pastoral Universitária do Campus Betim vem prestando solidariedade e apoio a alunos, professores e funcionários, no sentido de promover o acolhimento das pessoas que estão sofrendo. “A superação é um longo processo de reconstrução da vida pessoal, social e de reconciliação das relações rompidas com a vida que foi dizimada. Passamos da aceitação da situação e da realidade para a organização das pessoas e das comunidades”, afirma o coordenador da Pastoral Universitária, professor Helder de Souza Silva Pinto.

Dentro do conjunto de ações de intervenção propostas pela Universidade, a Pastoral Universitária também está envolvida e propõe a realização de seminários, encontros e oficinas, a fim de preparar e acompanhar o trabalho dos projetos de extensão em Brumadinho.

Texto
Fernando Ávila
Fotos
Raphael Calixto
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