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Administração Sob o estigma do HIV

Portadores de HIV/Aids relatam que o preconceito continua sendo um empecilho na vida profissional

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A professora Simone Costa Nunes, do Programa de Pós-graduação em Administração, orientou a pesquisa

O estudante de Publicidade e Propaganda Gabriel B., 24 anos, vive uma dicotomia entre vida pessoal e profissional. Já se apresentou como soropositivo nas redes sociais e coordenou grupo de acolhimento de jovens diagnosticados com HIV. Porém, hesita em revelar sua condição de soropositivo à sua chefia na agência de publicidade em que trabalha. “Vou selecionando as pessoas com quem comento. Uma coisa é uma pessoa que está no mesmo nível hierárquico saber. Outra coisa é minha chefe saber. Apesar de toda a minha abertura ainda tenho muito receio no trabalho”, explica. O estudante é uma das 585 mil pessoas que vivem com o HIV no Brasil. Desde que descobriu a sorologia positiva em 2014, aos 19 anos, deu início ao tratamento com terapia antirretroviral continuada. O tratamento garante a prevenção da transmissão do vírus e o suprime a níveis indetectáveis.

Porém, apesar de o tratamento contínuo com antirretrovirais garantir ao portador da doença uma vida social e profissional normais, o estigma no local de trabalho é real. Foi o que constatou o administrador de empresas Ronan Romão na dissertação de mestrado O Estigma no Trabalho: a vivência de profissionais soropositivos, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Administração da PUC Minas. A dissertação foi orientada pela professora Simone Costa Nunes. “O trabalhador que vive com HIV/Aids lida rotineiramente com uma série de adjetivos que o desqualificam no local de trabalho: pessoa doente, inapta, irresponsável, desleixada”, afirma o pesquisador. O estigma é entendido na pesquisa como uma reputação profundamente depreciativa e que na prática se converte em discriminação. “A Aids é uma doença que carrega um estigma social. Sempre foi marginalizada, ligada à promiscuidade, doença estereotipada e associada à homossexualidade”, destaca Gabriel.

A temática se tornou objeto de pesquisa a partir da observação de Ronan quando trabalhava no serviço de prevenção e assistência ao HIV/Aids do Sistema Único de Saúde da Prefeitura Municipal de Betim, entre 2007 e 2009. A primeira pesquisa relacionada ao tema, ainda na graduação em Administração na PUC Minas, foi feita entre 2009 e 2010. Uma segunda pesquisa foi desenvolvida entre 2017 e 2018 com 13 trabalhadores que vivem com HIV/Aids e atuam em organizações públicas e privadas da região metropolitana de Belo Horizonte. “Ser estigmatizado no local de trabalho ou viver com o temor de sê-lo estabelece o sofrimento e o adoecimento para esse trabalhador”, explica Ronan. “Grande parte destas pessoas conseguem omitir a própria situação. Ao mesmo tempo em que comemoram o avanço do tratamento que permite que elas trabalhem sem maiores limitações, parece que o local do trabalho é onde elas não podem ser elas mesmas. Não têm o que comemorar”.

De maneira geral, os participantes dessa pesquisa não passaram pelo processo agudo da doença, com comprometimento da aparência física. Em quase todos os casos foi possível iniciar o tratamento da síndrome em seu estágio inicial. A imagem do doente terminal de Aids, contudo, aparece como um fantasma. “Existe o medo e a insegurança de se aparentar fisicamente doente de Aids”, destaca Ronan. A pesquisa constatou que os trabalhadores se esforçam para esconder ou negar sinais e que não encontram um lugar de conforto, antecipam prejuízos do estigma por meio da ansiedade e do medo. “Nesse momento, a possibilidade de trabalhar, que é comemorada por eles como uma vitória sobre a doença, corporiza-se em sofrimento e adoecimento no local de trabalho. Caracteriza-se por um constante estado de alerta, um alto nível de estresse, pela autoestima que se fragiliza, pela possibilidade da depressão que surge implacável e pelo isolamento do grupo, que constitui um grande pesadelo para esse trabalhador”.

Para Gabriel B., que utiliza as redes sociais como uma forma para que as informações sobre a infecção sejam disseminadas, o receio é de que sua condição seja vista com preconceito. “Eu não falo que vou ao infectologista. Na empresa sou hipertenso e faço acompanhamento a cada seis meses. Fico com medo de ser vítima de preconceito. Muitas vezes o empregador tem a visão de que o soropositivo vai viver indo ao médico, não vai trabalhar direito. Mas não existe isso mais. A pessoa que faz o tratamento corretamente é saudável”, atesta. Além disso, Gabriel B. destaca a forma como as pessoas recebem a notícia. “Elas ficam sabendo pelas redes sociais, mas não comentam nada comigo. Não sabem como abordar o assunto. Quando converso com alguém sobre o assunto, muita gente acha que eu vou morrer. E a primeira coisa que eu falo é que não é transmissível. Assim que dou a notícia eu já aviso para a pessoa ficar tranquila.”

 

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Ronan Romão: “Empresas precisam garantir que os trabalhadores portadores de HIV/ Aids possam exercer suas atividades"

Empresas têm papel importante no combate ao estigma

O despreparo das empresas para lidar com o portador de HIV é uma queixa de Gabriel e também foi apontada pela pesquisa. “Sinto que as empresas não preparam os funcionários para a convivência. Poderiam ser realizadas semanas de prevenção. As Comissões Internas de Prevenção a Acidentes poderiam ser instrumentos deste trabalho. Se houvesse esta preparação nas empresas, o portador de HIV se sentiria mais à vontade”, atesta Gabriel.

Para Ronan, é fundamental atualizar, nos espaços de trabalho, a imagem associada à pessoa que vive com Aids. “É necessário superar, por exemplo, aquela triste imagem do fim da vida do memorável cantor e compositor Cazuza, que infelizmente morreu quando essa doença surgiu horrorizando o mundo e não havia recursos para detê-la”, pontua.

O pesquisador ressalta que são necessários treinamentos, campanhas, debates sobre saúde e segurança com a equipe e liderança. As organizações, diz ele, também precisam garantir meios que possibilitem à pessoa portadora de HIV/Aids exercer normalmente suas atividades laborais sem limitações, com dignidade e direitos respeitados.

Além disso, a dissertação aponta que é preciso uma revisão de conduta dos setores de recursos humanos e aqueles relacionados à segurança. “As empresas têm investigado a sorologia de seus empregados (ou candidatos) sob o pretexto de exames periódicos ou admissionais. Tal investigação se configura em uma ilegalidade. Essas áreas, em nossa percepção, devem ser vistas como local de acolhimento para qualquer trabalhador que traga qualquer demanda relacionada à sua saúde”, pondera Ronan.

A informação ainda é a melhor forma de combate ao preconceito. “Um estigma só pode ser combatido com o entendimento do processo que o gera e o mantém vivo na dinâmica social. É necessário, em primeiro lugar, compreender para desmistificar. Todos os estigmas se alimentam também da ignorância”, conclui Ronan, acrescentando que a empatia é um antígeno do estigma.

 

Direitos dos portadores do HIV

  • O Brasil possui legislação específica quanto aos grupos mais vulneráveis ao preconceito e à discriminação. Há artigos diretamente relacionados à questão laboral. Conheça alguns dos direitos fundamentais da pessoa portadora do HIV:
  • Os portadores do vírus têm direito a informações específicas sobre sua condição e à assistência e ao tratamento garantindo sua melhor qualidade de vida.
  • Nenhum portador do vírus será submetido a isolamento, quarentena ou qualquer tipo de discriminação. Ninguém tem o direito de restringir a liberdade ou os direitos das pessoas pelo único motivo de serem portadoras do HIV/Aids.
  • Todo portador de HIV/Aids tem direito à participação em todos os aspectos da vida social.
  • Ninguém poderá fazer referência à doença de alguém, passada ou futura, ou ao resultado de seus testes para o HIV/Aids, sem o consentimento da pessoa envolvida.
  • Ninguém será submetido aos testes de HIV/Aids compulsoriamente, em caso algum.
  • Todo portador do vírus tem direito a comunicar apenas às pessoas que deseja sobre seu estado de saúde e o resultado dos seus testes.
  • Toda pessoa com HIV/Aids tem direito à continuação de sua vida civil, profissional, sexual e afetiva. Nenhuma ação poderá restringir seus direitos completos à cidadania.

 

Lei antidiscriminação

  1. Em 2014, foi publicada a Lei nº 12.984, de 2 de junho , que define o crime de discriminação aos portadores do vírus da imunodeficiência humana (HIV) e doentes de aids.

Texto
Michelle Stammet
Fotos
Raphael Calixto
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