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Meio Ambiente Universidade sustentável

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O professor Fernando Verassani na composteira, onde são colocadas as sobras de jardinagem que se transformarão em adubo

Projeto de extensão reúne ações de sustentabilidade, como composteira, horta e jardim

No Brasil, 214.868 toneladas de resíduos sólidos urbanos foram geradas em 2017, totalizando 71,6 milhões nesse ano, segundo publicação mais recente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Dessas, 29 milhões, 40,9%, foram depositadas em locais inadequados, como lixões ou aterros controlados (cobertos com terra), que não aplicam os procedimentos adequados para proteger o meio ambiente e a saúde das pessoas. Diante desse cenário, a compostagem é uma alternativa eficiente e de baixo custo de destinação de resíduos, pois aproveita a matéria orgânica do local onde o lixo foi produzido, sem os gastos de deslocá-lo para um local específico, além de contribuir com a redução de gases do efeito estufa, que tem como um dos principais causadores desse fenômeno o gás metano gerado pelo lixo orgânico descartado incorretamente.

Na PUC Minas, o projeto de extensão Universidade Sustentável, do Curso de Ciências Biológicas, coordenado pelo professor Fernando Verassani Laureano, desde 2015 realiza e monitora diversas ações sustentáveis no Campus Coração Eucarístico e no entorno, sendo uma delas o gerenciamento de uma composteira juntamente com a Pró-reitoria de Logística e Infraestrutura (Proinfra) da Universidade. Para construí-la, foi utilizado um espaço de terra ocioso que fica ao lado da horta, entre o prédio 60 e o Complexo Esportivo, onde são colocadas em pilhas todas as sobras de jardinagem do Campus vindas das podas como galhos e gramas, além da horta, e esterco recebido da Fazenda Experimental PUC Minas, em Esmeraldas (MG).

Apesar de simples, o processo da compostagem demanda um cuidado adequado e preciso. “As pilhas precisam ter um tamanho específico para não ficar muito compactado e quente; o material depositado necessita de uma granulometria correta para que seja decomposto no tempo desejado; é preciso revirá-las com frequência para oxigenar e não gerar gás metano, além de irrigá-las para manter a umidade. Com o passar do tempo, os micro-organismos (fungos e bactérias) presentes no solo e no ambiente decompõem esse material depositado e o transformam em adubo, em média de três a quatro meses após o início do processo”, descreve André Rocha Franco, integrante do projeto e funcionário do Curso de Ciências Biológicas.

Com a construção da composteira, a Universidade deixou de utilizar adubo químico nos jardins dos campi e unidades e passou a usar o orgânico, oriundo da composteira. Os custos com aluguel de caçamba para recolher os restos de jardinagem também diminuíram consideravelmente, passando de cerca de R$ 2 mil mensais para aproximadamente R$400 , segundo a Proinfra.

Multiplicador de conhecimento

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Segundo André Rocha Franco, o processo da compostagem demanda um cuidado adequado e preciso

O projeto Universidade Sustentável conta com os eixos temáticos Educação Ambiental, Gestão Ambiental, Comunicação, Inovação e Tecnologia. Ao todo, participam 40 alunos extensionistas de cursos diversos. “A iniciativa gera ações, produtos, resultados e projetos, e às vezes demandas, que inserem a sustentabilidade no cotidiano da comunidade acadêmica e externa. O projeto vai ao encontro do último Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da Universidade (2017-2021), que coloca a sustentabilidade entre um dos eixos estratégicos”, afirma o coordenador.

Como espaço de experimentação, o projeto utiliza um local próximo ao prédio 60, onde ficam a composteira, a horta, o jardim sensorial, a sementeira, a Mata da PUC e a lagoa. Tanto a horta quanto a sementeira e a composteira são irrigadas com a chuva captada do prédio 60, outra ação do projeto. Na horta orgânica, são plantadas hortaliças, espécies medicinais e frutas, sem agrotóxicos e sem adubos químicos, que estão à disposição da comunidade acadêmica e do público externo. Na sementeira, são produzidas mudas com a flora nativa e secundária encontrada na Mata da PUC, que possui espécies da Mata Atlântica e do Cerrado. Já no Jardim Sensorial, são recebidos alunos, funcionários, professores e comunidade externa para uma experiência educativa e pedagógica de sensibilização por meios dos sentidos, como o olfato, paladar, tato e visão.

Para multiplicar o conhecimento, o Universidade Sustentável realiza durante todo o ano variadas atividades de educação ambiental no Campus, atendendo também demandas de cursos, departamentos e setores da Universidade. Tem, atualmente, como uma das principais atuações, a capacitação de alunos das licenciaturas do Instituto de Ciências Humanas da PUC Minas, bolsistas do projeto Escola Integrada, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, para ministrarem oficinas de educação ambiental nas escolas municipais da capital.

O alcance dessa ação é tão grande que atrai alunos do ICH que não são bolsistas do projeto para participarem das capacitações, por iniciativa própria, e também de outros cursos da Universidade, com o intuito de aprenderem sobre educação ambiental e como trabalhar o tema em suas áreas. Além disso, escolas de Belo Horizonte procuram a PUC Minas para trazer seus alunos para participar das capacitações. No ano passado, foram quase 40 escolas.

Segundo o extensionista Richard de Freitas Moreira, aluno do 4º período do Curso de Geografia, no projeto desde o início de 2018, responsável pelo eixo de Educação Ambiental, são realizadas atividades relacionadas ao conteúdo que está sendo dado na escola. “A ideia é trazer a sustentabilidade e educação ambiental aplicada à realidade da escola, da região em que ela está localizada e dos alunos. Muitos nos procuram para aprender a fazer uma horta ou uma composteira. No início, eles levam adubo e mudas daqui, depois adquirirem autonomia”, relata.

Entre outras parcerias externas do Universidade Sustentável, podem-se citar a com o Centro Dia do Idoso, do bairro Dom Cabral, onde alunas do Curso de Fisioterapia, orientadas pelos monitores do projeto, fizeram um jardim vertical com os idosos para mais conforto térmico ao local; com o Batalhão da Polícia Militar, no bairro Gameleira, onde é feita a recomposição da flora interna, com mudas produzidas na sementeira da Universidade, devido ao corte necessário de árvores atacadas por besouros metálicos, que agridem o caule; e com o BH Recicla, empresa de reciclagem de materiais eletrônicos, por meio de treinamentos sobre educação ambiental para eles repassarem aos seus parceiros comerciais.

Produção de conhecimento

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“A ideia é trazer a sustentabilidade e educação ambiental aplicada à realidade da escola, da região em que ela está localizada e dos alunos”

Richard Afonso Batista Moreira, aluno extensionista

A iniciativa também é objeto de estudo de alunos de graduação e de pós-graduação em projetos de iniciação científica, trabalhos de conclusão de cursos, teses e em dissertações. Um desses trabalhos, de extensionistas do Curso de Engenharia Química, trata da produção de um biodigestor, processo semelhante ao da composteira, mas que é realizado em ambiente fechado e, por ser revirado com uma frequência muito menor, gera gás metano que é transformado em fonte de calor. Um protótipo, com custo aproximado de R$ 100, já foi produzido e está passando por aprimoramentos para que seja apresentado às cantinas da Universidade como alternativa ao gás de cozinha. Também está sendo estudada a viabilidade de um protótipo de aluno do Curso de Engenharia Elétrica para transformar o calor gerado pelo biodigestor em energia, por meio de um conversor, para que o sistema de irrigação da horta da Universidade seja automatizado, dispensando assim a necessidade de um funcionário para ligá-lo diariamente.

Para o professor Fernando Verassani, o projeto faz ponte com vários cursos porque a sustentabilidade é um assunto multidisciplinar. “Aqui temos conseguido fazer esse universo pensar e agir juntos. Tem sido um espaço no Campus que envolve a formação de alunos engajados na sustentabilidade, que vem despertando neles ideias em busca de tecnologias renováveis. E é isso que esperamos ao longo do amadurecimento deles, que possam, com essa visão múltipla, iniciar pesquisas, protótipos e novos procedimentos que contribuam com o meio ambiente. Além disso, também tem sido espaço, como a composteira, por exemplo, para reciclagem de material, evitar resíduos e apoiar o Campus na gestão ambiental”, explica.

Gerenciamento de resíduos orgânicos

A reutilização de resíduos orgânicos também é tema de prática curricular de extensão de disciplina de Gerenciamento de Resíduos Urbanos, do 10º período do Curso de Engenharia Civil, da Unidade Barreiro, ministrada pelo professor Josias Eduardo Rossi Ladeira, coordenador do curso. A prática, que começou em 2017, culminou no segundo semestre do ano passado com a confecção de cartilhas, atividades de sensibilização das crianças da Escola Estadual Dom Bosco, e seis composteiras, aproveitando os resíduos orgânicos gerados pela escola. As atividades foram realizadas por alunos da disciplina, com o apoio de extensionistas do projeto Engenharia Sustentável.

De acordo com o professor Josias, a compostagem foi feita com camadas de palha, resíduos orgânicos e esterco, e o processo demorou aproximadamente quatro meses. A partir daí, os resíduos foram utilizados na produção de uma horta em um canteiro da escola: “Pegamos mudas de hortaliças da horta do Campus Coração Eucarístico da PUC Minas para fazer a horta da escola”.

A ex-aluna Karine Dornela Rosa, que cursou a disciplina e também atuou como extensionista do projeto Engenharia Sustentável, conta que muitas vezes não associava a prática com a Engenharia Civil, mas estava enganada. “Na disciplina também aprendemos sobre resíduos orgânicos e vemos como funciona a compostagem, qual a maneira correta de produzi-la, os locais corretos para fazê-la, a importância de se controlar a temperatura. Então, colocamos em prática todo o processo que vimos em sala de aula”, diz.

Apesar disso, Karine acrescenta que o diferencial desse trabalho foi o contato com as crianças da Escola Estadual Dom Bosco: “Cada encontro que a gente tinha com elas era uma experiência única porque víamos que estavam interessadas no projeto e queriam saber como dar continuidade em suas casas”.

Texto
Júlia Mascarenhas e Tereza Xavier
Fotos
Raphael Calixto
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