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Geografia Vulnerabilidades na migração internacional

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Tese analisa fragilidades das condições sociais e individuais de filhos de pessoas que migram de Governador Valadares para Boston, nos EUA

O sonho de melhorar de vida faz muitos brasileiros optarem por migrar para outro país, deixando os filhos no Brasil. Mais raro é conseguir levar toda a família, muitas vezes todos permanecendo lá como ilegais. Outros tantos têm os filhos lá no outro país e os enviam de volta para conhecer os familiares. E muitos filhos, nascidos no Brasil, também nunca mais retornam para cá depois de emigrar. Seja de que forma for, a migração internacional envolve vulnerabilidades sociais e individuais, tanto para quem parte quanto para quem fica. Uma delas é a não formalização pelos pais de uma guarda legal para a criança ou adolescente que permanece com familiares no Brasil, a partir da expectativa de ser apenas uma migração temporária. Tornando-se definitiva, a criança ou adolescente que ficou vivencia um verdadeiro luto pelo afastamento dos pais.

Esse é um caso de vulnerabilidade social e individual na migração internacional entre cidades da microrregião mineira de Governador Valadares, na Região do Vale do Rio Doce, e a região de Boston, na Costa Leste dos Estados Unidos, descrita por Silvana Andrade Pena Knup na tese de doutorado Convivência Familiar e Comunitária de Crianças e Adolescentes e Vulnerabilidades no Processo de Migração Internacional. O estudo foi defendido recentemente no Programa de Pós-graduação em Geografia – Tratamento da Informação Espacial da PUC Minas, por meio do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP), da Universidade.  A orientação foi do professor Duval Magalhães Fernandes e coorientação da professora Maria da Consolação Gomes de Castro. 

A pesquisadora verificou situações frequentes nas quais aquele familiar que ficou informalmente responsável pela criança no Brasil não quis devolver sua guarda com o retorno dos pais, impedindo os genitores de conviver com o menor. Em outro caso analisado, a já hoje adolescente, que sofre de obesidade, quer conhecer o pai que emigrou, mas é impedida de vêlo pela mãe e pela avó, que não permitem inclusive que dele se fale em casa, conta a pesquisadora. 

Silvana Knup entrevistou, na região mineira, durante um ano, crianças e adolescentes de 14 famílias nas quais elas ali permaneceram enquanto os pais migraram e 20 crianças e adolescentes que residiram nos Estados Unidos com os pais e retornaram com eles, da região de Boston para a região valadarense. Já na região de Boston, Silvana Knup entrevistou, durante dois meses e meio, outras 13 famílias e também a atuação de instituições que dão apoio a imigrantes brasileiros. 

Mobilidade mal supervisionada

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“Se é interesse do Brasil tratar a migração internacional como direito à mobilidade e não como necessidade, é necessário ao País prestar atenção à criança que fica, protegendo-a das vulnerabilidades sociais e individuais envolvidas”

Silvana Andrade Pena Knup

O estudo classifica de “mal supervisionado”, por parte do Brasil, o trânsito de crianças entre os dois países. Naquela região de Boston, Silvana Knup presenciou relatos de crianças que lá nasceram, mas vieram ao Brasil pela primeira vez acompanhadas de pessoas que elas não conheciam, já que os pais não puderam sair dos EUA, por estarem ilegais. Um exemplo: menino de 11 anos, que estava gripado, veio ao Brasil conhecer a avó. Suspeito de ter contraído gripe suína, teve que ficar isolado por 40 dias na casa da avó que acabara de conhecer, sem a presença da mãe, que teve que permanecer nos EUA. 

É necessário, defende Silvana, que o poder público implemente políticas mais eficazes de apoio, principalmente às crianças que permaneceram no Brasil sem as respectivas famílias da microrregião mineira de Governador Valadares que emigraram para os Estados Unidos, a fim de diminuir a histórica tendência cultural de migração de brasileiros daquela região para aquele país. “Se é interesse do Brasil tratar a migração internacional como direito à mobilidade e não como necessidade, é necessário ao País prestar atenção à criança que fica, protegendo-a das vulnerabilidades sociais e individuais envolvidas.” 

Relatos de violência doméstica

A maior parte das famílias pesquisadas não emigra para os EUA acompanhada das crianças, mas muitas nascem lá e, se os pais têm dificuldades no local de destino, ocorre, em alguns casos, o envio de crianças de volta ao Brasil, como relata a pesquisadora. É o caso de Fernando (nome fictício), nascido nos Estados Unidos e detentor de dupla nacionalidade: a mãe dele o enviou para viver com a avó no Brasil e depois retornou para cá, já divorciada. Tempos depois, desejando retornar aos EUA, a mãe enviou o filho primeiro, a fim de facilitar sua entrada naquele país, mas ela não conseguiu visto para ir e a criança não se adaptou vivendo com um tio. O filho desenvolveu esquizofrenia e foi internado em um hospital psiquiátrico norte-americano. Tempos depois retornou ao Brasil e se recuperou por meio de tratamento psiquiátrico, já em companhia da mãe. Recentemente, já adulto, voltou para os EUA sem a mãe, que ainda deseja voltar para lá.

Em entrevista com 13 instituições que apoiam imigrantes brasileiros na região de Boston nos EUA, Silvana Knup ouviu relatos de casos de violência doméstica, de maridos brasileiros contra as esposas brasileiras. Isso porque, como explica a pesquisadora, ao mudar-se para os EUA há maior facilidade de as mulheres conseguirem trabalho, com clientela garantida em atividades domésticas, ao contrário dos homens, que geralmente trabalham em áreas sazonais, como construção civil e paisagismo, por exemplo. “Com isso, a mulher adquire empoderamento, diferente do contexto de dominância masculina no qual vivia no Brasil, e aí as relações conjugais sofrem mudanças que em alguns casos levam a situações de violência doméstica”. 

Imigrantes de segunda geração

Já as crianças e adolescentes filhos de imigrantes brasileiros, que nos EUA nasceram, apesar de nativos, cidadãos norte-americanos, vivenciam situações que limitam a própria cidadania e, no próprio censo americano, são reportadas como imigrantes de segunda geração, apesar de nativos, compara. “Pelo fato de serem filhos de imigrantes, também sentem preconceito da sociedade dos EUA, além de não exercerem certos direitos se os pais estiverem lá ilegais”, lembra Silvana. Além disso, tendem a se relacionar somente em comunidades de imigrantes brasileiros. Citando pesquisa de instituição do estado de Massachusetts, onde está a região de Boston, a educação nas comunidades de imigrantes é inferior à destinada aos norte-americanos e, mesmo sendo americanos, de acordo com a pesquisadora, as escolas que frequentam, próximas às suas residências, são piores que as destinadas aos nativos. “A família brasileira vai para os EUA para dar um diferencial na educação para o filho, mas continua com vulnerabilidade social. Geralmente, esses jovens nativos não conseguem entrar numa universidade dos EUA e também não obtêm sucesso para estar em uma universidade brasileira ou mesmo acompanhar as aulas, já que têm dificuldade com a língua portuguesa ou mesmo em serem aprovados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)”, analisa Silvana.

Texto
Leandro Felicíssimo
Foto
Marcos Figueiredo
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